segunda-feira, 22 de abril de 2013



Quanto tempo você consegue nadar na superfície?


Tem um cara no meu trabalho que

tem problema com drogas. Tentei falar

com ele, pois todos da equipe (inclusive

ele) sabem que estou em recuperação.

Ele me assegurou, no entanto, que não

precisava me preocupar; ele só necessitava de um pouco de força de vontade.

Após diversas chamadas do chefe pelos

seus atrasos e seu estado, ele acabou

sendo suspenso por alguns dias.

Quando voltou da suspensão, conseguiu chegar no horário apenas nas

primeiras duas semanas. Ao final desse

período, entrava apressado, em cima da

hora. Até que um dia apareceu com duas

horas de atraso, e passou o intervalo do

lanche e do almoço isolado. Tentei me

aproximar de forma amistosa, mas ele

me cortou.

Alguém da equipe comentou que ele

tinha começado tão bem, e que depois

havia perdido os modos. De repente, do

nada, eu disse que ele não tinha come-

çado bem, que estava apenas tentando

nadar na superfície. Comparei a força

de vontade à natação sobre a superfí-

cie, que funciona por um tempo até a

energia do nadador acabar. Comparei o

programa de recuperação a um mergulho

profundo, que é uma forma relaxada de

sobrevivência, em que se fica boiando

e voltando à superfície a cada cinco ou

dez segundos para respirar, para então

submergir com tranqüilidade. Existe até

um tubo para se respirar e seguir de

forma suave e constante.

Algumas pessoas aprendem essa

técnica com rapidez, enquanto outras

(como eu) somente encontram seu caminho após muita luta. Para quem nunca

vivenciou nem compreende a adicção

ativa, pode ser difícil compreender essa

imagem, porém, aprendi com a ajuda de

outros companheiros de NA que posso

alcançar esse tipo de progresso contínuo

em meu programa de recuperação.

Esta é uma forma de explicar por que

a força de vontade falha tantas vezes, e por que nós, adictos, precisamos encontrar uma nova maneira de viver. Apesar

da comparação ser fraca, muitas vezes

ajuda as pessoas não adictas a compreender a recuperação.

Como nosso chefe viu o meu crescimento nos últimos anos, desde que me

contrataram com desconfiança, saindo

das ruas, até me transformar em um funcionário dedicado, ele resolveu incentivar nosso colega a procurar ajuda.