quinta-feira, 23 de maio de 2013

Overdose é problema de saúde pública



A morte de Chorão, líder da banda Charlie Brown Jr., por ingestão de grande quantidade de cocaína — quase cinco vezes maior do que já seria configurado como overdose —, trouxe à tona um problema grave de saúde pública no Brasil. O número de mortes por autointoxicação cresceu 65% em uma década, passando de 916 em 2000 para 1.516 em 2010 (veja o quadro).

As autoridades não têm números consolidados sobre as substâncias mais usadas pelas quase 25 mil pessoas que morreram no período.

Entram na estatística diferentes situações, desde a overdose clássica, como a que vitimou o roqueiro, até as vidas perdidas por doenças crônicas em decorrência do uso de entorpecentes ou por crises de abstinência.

Os dados, levantados a pedido do Correio pelo Ministério da Saúde, revelam apenas uma parte pequena do problema. Isso porque nem todas as mortes por esse tipo de intoxicação são notificadas. Além de o tema ser sensível, as autópsias nem sempre conseguem conectar a causa da morte ao uso de alguma substância tóxica. “Na verdade, é bastante incomum que se tire essa conclusão. Na maioria das vezes, a pessoa não morre na hora. Ela é socorrida, vai para um hospital. Durante esse tempo, o corpo metaboliza parte da substância”, diz Malthus Galvão, professor de medicina legal da Universidade de Brasília (UnB).

Ele considera a cocaína uma das substâncias mais perigosas porque a distância entre a dose recreativa e a que configura overdose, cerca de 1 micrograma por mililitro de sangue, é pequena em relação a outras substâncias — no caso de Chorão, a concentração de cocaína no sangue era quase cinco vezes maior. “O indivíduo desenvolve tolerância, que leva à necessidade de consumir mais para ter o mesmo efeito. E não percebe que está chegando ao ponto letal. Fenômeno incomum com outras substâncias que causam, quando usadas excessivamente, uma sensação popularmente conhecida como empapuçamento, ou seja, o indivíduo não consegue consumir mais na mesma ocasião”, explica Galvão.

Apesar de existir parâmetros descritos cientificamente, a dose letal tem relação com a condição clínica do usuário, de acordo com o psiquiatra Carlos Salgado, ex-presidente da Associação Brasileira de Álcool e Drogas (Abead). “Muitas vezes, até por um problema de saúde não conhecido, como uma cardiopatia, o sujeito ingere uma quantidade de droga que não causa nada para o amigo, mas que, para ele, será mortal”. Da mesma forma como há pessoas que resistem a dosagens mais elevadas.

Efeitos diferentes

O coração é o órgão mais frequentemente sobrecarregado pelo consumo de drogas. Mas a forma como ele entra em colapso depende muito do tipo de substância consumida. Álcool e maconha, por exemplo, são chamados de depressores porque fazem o organismo trabalhar mais lentamente, levando à sonolência, coma e parada cardiorrespiratória, descreve Salgado. A cocaína e o ecstasy são exemplos de estimulantes. Aceleram os batimentos, elevam a pressão arterial, comprimem as artérias e diminuem a irrigação sanguínea, podendo levar a um acidente vascular cerebral ou infarto do miocárdio.

O aumento no número de mortes por overdose está em sintonia com as estatísticas de usuários de drogas no país. A literatura nacional aponta que 12% da população brasileira tem algum nível de dependência em álcool. No caso da cocaína, 4,6 milhões de brasileiros já a experimentaram ao menos uma vez na vida — metade fez uso da droga no último ano —, o que representa 2% da população adulta. Os dependentes somam 1 milhão de pessoas. E pouco mais de 3 milhões fumam maconha frequentemente. Só entre os adolescentes, são 470 mil usuários recorrentes.

“O indivíduo desenvolve tolerância à cocaína, que leva à necessidade de consumir mais para ter o mesmo efeito. E não percebe que está chegando ao ponto letal”
Malthus Galvão, professor de medicina legal da UnB

Escalada de mortes
Número de vítimas de autointoxicação em 10 anos:

2000 916
2001 1.101
2002 1.231
2003 1.292
2004 1.187
2005 1.334
2006 1.400
2007 1.443
2008 1.532
2009 1.383
2010 1.516
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)