quinta-feira, 2 de maio de 2013



                                 Recebeu a recuperação?


Doando, para receber


Acredito que levar a mensagem de Narcóticos Anônimos seja a nossa função mais importante enquanto adictos em recuperação. Na verdade, é o propósito primordial dos nossos grupos, conforme diz a Quinta Tradição. Da mesma forma, levar a mensagem é uma das principais metas de cada uma das nossas entidades de serviço, estando o seu cumprimento no âmago dos esforços e trabalhos do Quadro Mundial e da Conferência Mundial de Serviço – ambos aparentemente distantes do “adicto que ainda sofre”.
Estes parecem ser os meios mais óbvios de levar a mensagem, mas existem outros. Existe uma multiplicidade de interações pessoais, que um adicto em recuperação pode encontrar, onde nossa mensagem é transmitida – intencional ou inconscientemente, positiva ou negativamente – mas transmitida, assim mesmo. A seguir, relato a história de como a mensagem de NA me foi transmitida, e de como aprendi a levá-la aos outros.
Ouvi falar de NA através das pessoas com quem usava, e que haviam sido presas e obrigadas judicialmente a cumprir freqüência de reuniões. Uma vez, chegaram até a me convidar a ir a uma reunião. Disse não, obrigado. Sempre me diziam que havia pessoas legais nas reuniões, que contavam histórias interessantes. Foi a primeira mensagem que recebi, juro. “Legal” e “interessante” foram impressões que ficaram comigo por um tempo.
Acabei por assistir a minha primeira reunião de NA em dezembro de 1992 em Salt Lake City, Utah. Uma garota com quem eu usara na minha cidade natal, no norte da Califórnia, tinha sido presa e obrigada pela justiça a freqüentar reuniões. Havia se mudado para Salt Lake City e me ligou para pedir que a levasse às reuniões. Apesar de eu próprio não estar em um período particularmente vitorioso, pensei: “Ela está ferrada mesmo; acho melhor ajudá-la a sair dessa”. Assim, concordei em levá-la.
Na minha primeira reunião de NA, fiquei nervoso e um pouco desconfiado. Porém, percebi o espírito de amizade que os companheiros tinham uns com os outros.
Existia uma sintonia, que considerei atraente. Alguém me deu um abraço. Após a leitura, que considerei “interessante”, perguntaram se havia recém-chegados. Não hesitei em levantar meu braço e pronunciar as palavras mágicas para me tornar um membro: meu nome, e a admissão “sou um adicto”. Fiquei tão desconcertado com as palmas, a atenção e receptividade, que quis voltar. Foi o que fiz… por um tempo.
Durante os quase dois meses em que freqüentei as reuniões de Salt Lake City, havia um homem que falava comigo sobre os passos, apadrinhamento, participação, e a importância de fazer novas amizades. Ele plantou a semente em meu fértil terreno. Apesar de a semente ter demorado a germinar, a planta segue crescendo, até hoje.
Deixei Salt Lake City e retornei à minha cidade natal, retomando o ponto em que havia parado. Aquela temporada específica durou uns seis meses. Não mantive contato com NA durante aquele período, e acabei desempregado, exaurido e com impulsos suicidas. Apesar de a camaradagem e amizade dos membros de NA me atrair, eu prosseguia usando.
Durante os dezoito meses seguintes, eu conseguia ficar limpo alguns meses, depois usava, fazia mais uns meses, e usava de novo. Assistia às reuniões entre uma recaída e outra, sempre recebendo calorosas boas-vindas, que faziam minha dor aumentar.
No meu pensamento doentio já esperava ser rejeitado, uma vez que eu mesmo me rejeitava detestava. Quando recebia amor e aceitação em contraste à minha auto-aversão, esta só piorava.
Os companheiros nunca me humilharam, graças a Deus! O que sentia já era o suficiente. Simplesmente, recusavame a cessar com algum comportamento particularmente detestável, e então voltava a usar.
Quando eu desaparecia por alguns dias, as pessoas me ligavam e deixavam recados na secretária eletrônica. Diziam coisas assim: “Espero que você esteja bem”, “Sentimos sua falta” e “Você vai
aparecer hoje à noite?” A mensagem de amor foi levada mais longe ainda.
No começo de julho de 1994, um desses fiéis torcedores me pediu para acompanhá-lo e a outros companheiros a um piquenique de quatro de julho (dia da independência dos Estados Unidos),
organizado por uma comunidade vizinha de NA. Ela disse não se importar se eu tinha dinheiro ou não, ou se eu estava limpo ou não – queria apenas que passasse o dia com ela, e com a irmandade.
Concordei.

Acordei naquela manhã, 4 de julho de 
1994, e não usei nada. Encontrei-me com ela e com os outros companheiros no local combinado, e fomos ao evento.
Diverti-me tanto naquele dia. As pessoas riam e celebravam sua recuperação, e eu participei também. Brinquei, joguei, fizemos guerra de água – e tive um dia maravilhoso.
Na reunião principal, houve uma contagem regressiva de tempo limpo, e eu fui o adicto com um dia limpo. Levantei-me, o que pareceu desencadear um
enorme tumulto. Fui inundado pelo amor da irmandade.
A irmandade de Narcóticos Anônimos me amava limpo. Não fui forçado, humilhado, manipulado, culpado, ou mesmo coagido a ficar limpo. Simplesmente, eu era amado, limpo. Sei que pode parecer um pouco dramático, mas é verdadeiro – e tem sido o suficiente há quase sete anos.
Quando tinha quase duas semanas limpo, estava em uma reunião onde aquele cara estava falando. Eu estava à procura de um padrinho, e até já tinha uma noção de quem poderia chamar.
Entretanto, aquele companheiro específico não estava na lista.
Começou a partilhar sobre a sua infância, e sobre a dor e as conseqüências do abuso sexual. Partilhar nesse nível de honestidade me mortificaria! O que o levava a falar desse tipo de coisa em público era insondável, e, no entanto, uma parte de mim se encheu de esperança. Percebi que uma pessoa poderia cicatrizar de tal abuso e encontrar paz, estando em recuperação. Essencialmente, ele contou parte da minha história, e eu me transformei, daquele momento em diante. Ele se tornou meu primeiro padrinho, e me ajudou em muitas das minhas dificuldades iniciais. O poder da mensagem de recuperação deu-me o poder de agir.
Outro acontecimento desse período ficará para sempre comigo. Houve um companheiro que se aproximou de mim, quando comecei a freqüentar um certo grupo. Ele me incluía nas reuniões de serviço, sempre perguntando o que eu pensava. Eu me sentia “participando”.
Quando eu estava com uns 60 dias, ele faleceu, deixando mulher e filhos. Foi um momento triste para a irmandade, sem falar em sua família.
Os membros da área decidiram levantar dinheiro para sua família. Testemunhar e participar desse tributo de amor foi muito forte para mim. A união e o nsucesso final daquela iniciativa transmitiram a este recém-chegado a mensagem de que as pessoas realmente se amavam e se importavam umas com as outras. Gravaram em mim um sentido de comunidade e amor que eu jamais experimentara antes de chegar a NA. Amor este que tive a oportunidade de presenciar e vivenciar na nossa irmandade, muitas vezes depois disso.
Estes são exemplos de como a mensagem me foi trazida, vezes sem conta.
Não houve muitas mudanças. A irmandade continua a proporcionar incontáveis formas de transmitir sua mensagem de esperança, da qual eu tanto preciso. Aprendi a levá-la a outras
pessoas. Aprendi a importância de doar o que eu recebera.
Sabe, ficando limpo e trabalhando os passos, percebi que gosto do que tenho e de quem sou, e que desejo manter isso tudo.
Como mantenho? Tenho que doar.
A forma mais óbvia de levar a mensagem é no grupo. Passei por um período em que pensava ser pouco espiritual ou pouco atrativo partilhar sobre os problemas ou dilemas que eu estava vivendo no início da recuperação. Então, falava sobre a “luz do sol” que me iluminava, e todas as coisas boas que NA estava trazendo para a minha vida. Não falava sobre as inseguranças viscerais que tinham de agüentar, ou da opressiva solidão que me atormentava naqueles primeiros tempos da recuperação.
Em algum ponto do caminho, passei a partilhar a verdade da minha vida a mensagem completa da recuperação.
Aprendi que partilhar somente o lado otimista revelava apenas metade da história, o que beirava a desonestidade.
Aprendi que existe um nítido valor em partilhar a dor do crescimento e da mudança. Lembro-me do meu primeiro padrinho, falando da dor da sua vida, e o reconhecimento, alívio e esperança que
senti quando ouvi suas palavras. Recordo que me senti menos só.
Quando estava com pouco mais de dois anos, fiquei sem moradia. Durante alguns meses, acabei dormindo no chão da casa de amigos. Fiquei constrangido em falar sobre isso, mas partilhei. Tive sentimentos suicidas e atormentados pela negatividade, e partilhei sobre eles.
Estava em um relacionamento fracassado, no qual tinha minha própria parcela de
responsabilidade. Sabotei minha relação com meu melhor amigo, destruindo o que existia entre nós. Ele nunca mais me procurou. Tive que contar isso também.
Sempre havia alguém que vinha falar comigo, e agradecer minha partilha sobre a vida real. Era a evidência do valor de levar a mensagem daquela forma, fosse através da vitória ou da dor.
O apadrinhamento é uma área principal de enfoque para mim, ao levar a mensagem. Como declarei anteriormente, gosto do que sou. Trabalhando os passos, repetidamente, descobri grande valor em mim mesmo, e em quem estou me transformando, e concluí que vale a pena fazer a manutenção. Portanto, repito, preciso doar, para manter e conservar o que tenho hoje. O apadrinhamento é uma via de mão dupla. Nele reside o paradoxo do serviço abnegado de NA: quando doamos, nós ganhamos, e isso nos leva a busca pronta e ativamente novas oportunidades de doação. Aqueles de nós que aceitaram este fato, parecem ser os mais ativos na irmandade. São pessoas que estão presentes, semana após semana, prestando serviço. Para muitos, ele inclui o apadrinhamento.
Quando um afilhado faz seu trabalho e tenho a oportunidade de servir, eu me dôo, cresço e conservo aquilo que possuo.
Entretanto, quando concordo em apadrinhar e o trabalho não é feito, não estou doando nem mantendo. Estou sendo enganado. Por isso, não tenho escrúpulos em manter meu bem estar em recuperação, insistindo para que os afilhados trabalhem os passos. Como me afeta diretamente quando os afilhados trabalham ou não os passos, então eu solicito algum tipo de compromisso futuro – não um “prazo” rígido, mas algum tipo de comprometimento. Qualquer desculpa que um adicto ofereça para não trabalhar os passos é um pretexto para permanecer na doença.
Aprendi e comprovei isto na prática!
Não tenho certeza de onde veio esta linha dura. Talvez do padrinho que não me deixava sentir “vítima”, e que me nmostrava como assumir responsabilidade por mim e pelas minhas ações. Ou da grande quantidade de adictos que não ficam, porque já têm todas as respostas. Ou talvez a linha dura decorra de ver meus amigos de NA recaírem, porque se esqueceram de ouvir e levar a
mensagem que os ajudou no início. Ou talvez seja meu próprio medo, medo de saber que sou bastante propenso a recair, e porque quero ficar limpo, mais do que qualquer outra coisa na minha vida.
Afinal, sou um adicto – não estou isento da inclinação para a recaída.
De qualquer forma, aprendi a cuidar de mim em NA, e aprendi que é minha a responsabilidade de fazê-lo.