quinta-feira, 21 de março de 2013



ESPIRITUALIDADE: O QUE É ISSO?




“Será que espiritualidade se refere só a Deus e à religião, ou terá um significado mais lato?

Será a dependência química uma expressão destrutiva de nossa natureza espiritual?”


Ao ingressarmos num grupo de auto-ajuda somos instados a crer que, um Poder Superior conforme o concebemos, pode devolver-nos a sanidade. Que decidimos entregar aos cuidados de Deus nossa vontade e nossa vida.
Muitas vezes essa proposta deixa o iniciante em choque: ele nem sabe o que é Deus! Até a muito pouco tempo seu deus era o objeto de sua adicção.
- E espiritualidade? O que é isso? Terei que entrar em alguma igreja, abraçar alguma religião para conseguir me recuperar?
Essas perguntas podem atormentar e até atemorizar nosso ingresso na sanidade. Para resolver, precisamos compreender a definição ampla de espiritualidade.
“Uma das maneiras de definir é constatando as áreas da vida às quais a espiritualidade se liga:
Espiritualidade tem a ver com a qualidade do nosso relacionamento com quem quer que seja ou o que quer que seja de mais importante em nossa vida”.
Faz parte da condição humana. Todos temos um lado físico e um lado emocional, assim como um lado espiritual. Uma psiquiatra inglesa foi a primeira a aceitar o trilogismo que nos constitui. Nosso lado espiritual nos vincula aos outros seres humanos, através dele fazemos parte de um Todo. Deus é apenas um dos muitos focos espirituais possíveis.
Podemos nos aceitar matéria, uma vez que é palpável e visível. Podemos nos aceitar emoção porque é sensível. Mas temos dificuldade de nos aceitar espíritos porque somos infantis e queremos crer apenas no que podemos tocar, cheirar, ver, degustar ou sentir. Como se o Universo, a Criação, estivesse preocupada com nossas necessidades ou desejos. A Essência existe, queiramos ou não.
No entanto, também é simples perceber nossa espiritualidade se constatamos que está ligada a sentimentos como amor, confiança e compromisso. Por algum tempo depositamos todas essas preciosidades no foco de nossa dependência: amávamos o objeto, ou acontecimento através do qual nos ligávamos ao mundo: álcool, drogas, jogo, comida, cigarro, etc. Esse amor afetava todas as nossas outras áreas de vida: a família, o trabalho, o lazer. Vivíamos uma espiritualidade distorcida e destrutiva.
A palavra “espiritualidade” tem sua raiz em “espírito” que significa, segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:
* Parte imaterial do ser humano.
* Alma.
* Pessoa dotada de inteligência ou bondade acima do comum.
* Imaginação, engenho, inteligência, finura.
* Ânimo, índole.
* Graça, humor.
* Idéia predominante; significação, sentido.
* Faculdade de conhecer, de aceitar as coisas.
* Idéia, pensamento, cabeça.
A concepção, assim percebida, aumenta consideravelmente e pode abranger muitos aspectos de nossa vida.
Quando falamos sobre o espírito de equipe de nosso time de futebol, ou no espírito de fraternidade dos grupos de auto-ajuda, compreendemos bem que é o sentimento que une e move as pessoas.
Espiritualidade nos une a alguém ou a alguma coisa que nos dê a sensação de Plenitude. Todo ser humano necessita sentir-se completo. Carl Jung definiu o alcoolismo como “...doença espiritual que tem na sua base um impulso para a plenitude...”.
Por algum tempo, nos sentíamos plenos com o uso de falsos portadores dos deuses: foco de nossa dependência. Falsa plenitude, logo seríamos esquecidos e traídos por ela. O objetivo mais amplo da dependência é a destruição. Nós aceitamos essa imposição porque retiramos de valores dignos e das pessoas, a nossa confiança. Para não sermos traídos, nos entregamos à Traição.
Passamos agora a adquirir um conceito de espiritualidade que nos permite escolher como a conceberemos. O lado magnífico dessa concepção é que, em vez de nos sufocar e se tornar maior do que nosso Eu, ela nos permite expandi-lo ao infinito. Podemos começar a admitir que nosso Poder Superior é o nosso grupo de auto-ajuda, os companheiros com seu carinho e compreensão da qual somos tão necessitados. “Um grupo de pessoas é um poder maior do que nós mesmos, e podemos dar-lhe o poder divino de nos mostrar o que precisamos fazer”.
Podemos olhar o céu numa noite esplendorosa, ou num dia de temporal e sentir a imensidão do Universo e deixarmos que seja ele a nossa Espiritualidade. A partir daí olharemos os seres vivos e deixaremos que nos ensinem com sua pureza e fidelidade à missão para a qual foram criados. A capacidade de embelezar da natureza. A dadivosa doação das plantas. A sabedoria dos animais. O carinho de tantos pela sua prole. E isso de formas múltiplas, quase interminável.
Podemos crer que a Criação é o que governa tudo e poderá nos governar.
Podemos encontrar eco em alguma religião constituída e a abraçarmos sem reservas, seja ela qual for.
Espiritualidade e religião são usadas como se fossem a mesma coisa e não são. Espiritualidade nos liga ao nosso foco de amor e religião é um conjunto de crenças, preceitos, rituais específicos de cada uma como forma de nos aproximarmos de Deus, sendo Este também conceituado segundo tais preceitos. A palavra Religião vem do latim religare, ou seja religar-se, portanto é ligação ou re-ligação com um Poder Superior, sem que haja especificação de forma ou meio. A partir daí temos uma série de religiões que corresponderão a arquétipos que nos sensibilizam, ou não.
Enfim, ao deslocarmos nossa espiritualidade para focos construtivos, podemos concebê-la como quisermos e como melhor fala ao nosso Eu sequioso de desenvolvimento, amor e felicidade.