quinta-feira, 21 de março de 2013

A COISA

Tu pensas que poderás dar um gole, um teco, uma fungada... Comprar um cinto, comer um chocolate, jogar uma vez. Matar apenas um.
Engano teu.
Neste mundo nada é feito no singular, tudo é plural, muitas vezes plural. É uma corrente de elos infinitos.
Depois do um, vem o dois, o três... Vêm todos. O primeiro é muito, os outros são poucos. Poderão se engatar pelo resto de tua vida e ela será de desespero.
Mano, isso é uma confissão. Eu senti na pele.
Tu nem te lembras mais como é estar limpo e isso te parece careta, besta, babaca.
Mano, a gente se engana, a gente se troca. A gente vira escroto a serviço, senão virar a mesa.
Estar limpo é ter a vida na mão outra vez. É poder escolher. Podes escolher voltar para a droga de forma controlada, seja lá qual for, mas escorregarás. Não tens domínio sobre ela. Ela tem domínio sobre ti.
Enganas-te também se pensas que não estás preso por que não és usuário de drogas, ou álcool, nem sequer jogas. Se não controlas tuas compras e chegas até a roubar parapossuir, se o computador é teu travesseiro, teu bom dia e tua refeição. Se comer chocolate é tão vital quanto beber água, se não dormes quando não tomas uma boleta, se te arrastas miseravelmente por um amor fodido. E dezenas de coisas mais, tu és um adicto. O bingo, os jogos da Internet, a comida sem limites que cala tua ansiedade. Se achas que podes transar com todo mundo que passar na tua frente e sentires poder ao fazê-lo. Tudo isso, mano é a mesma doença: dependência.
Quando acordares, se conseguires fazer isto, estarás atirado no chão, pano velho descartável. Coisa rota e suja. Por que estarás sujo e, talvez, vomitado, prenhe de vermes.
Os vermes te comem todos os dias, dentro de tua cabeça e fora também, na matéria que te foi dada. Os vermes podem aparecer na parede, no teu corpo e terás medo. Muito medo. Eles ficarão enormes e buscarás, desesperadamente, uma saída.
Todas as portas estarão fechadas, mano. Haverá uma aberta: a recuperação. Sair do lixo, a-bandonar a coisa que te seduz e te humilha.
Mano, sei que precisas disso como o ar que respiras porque te alivia. Te dá o esquecimento.
Esquecer o quê, mano?
Se as coisas não mudam, a menos que tu mudes teu modo de vê-las. São pesadas, bem sei. Porém, não são eternas. Eterna é a coisa que usas para fugir da realidade que não gostas de ver e, pior, de sentir. Enfeias a realidade mais do que ela é.
Depois, mano, tu não sentirás nada e nem saberás por que estás perdido de todos os caminhos e o único caminho aberto é tua alienação. Tu continuarás usando por que ela te pôs num espeto do qual não podes te safar.
A coisa, então, se mostra de verdade, em todo seu negror e seu desespero. A coisa, mano, é isso: desesperança de tudo. Saída sem saída. Beco, tortuosa viela. Desastre aéreo e sucumbível, onde não tens por onde sair. Estás preso, mano. Estás fodido.
É preciso reverter o processo.
Como fazer tal feito?
Tu foste seduzido e a sedução é a pior das armas. Nos engata, nos promete o céu. Vemos o céu. Ilusão, mano, pura ilusão. E dependência mostrará suas garras afiadas. A paixão é difícil de lar-gar, queremos de novo e de novo o que atingimos da primeira vez. Não volta, mano. Jamais voltará. A paixão dá descarga de adrenalina que precisamos porque não agüentamos o tirão da vida. Ficamos dizendo que o nosso foi além da conta a ser paga. Todos dizem, mano.
Houve covardia de encarar. Houve peso e sofrimento que não estava no nosso cardápio. A-creditamos que somos dignos da felicidade. Felicidade... Esta se conquista, mano. Não é dada de graça, precisa de olhos abertos e não da cegueira da droga, do esculhambo que escolhemos. Precisa aceitar que a vida não é justa, isso é invenção dos homens covardes, dos sem fibra para agüentar vi-ver. É história, mano. A vida é conseqüência.
Sabe, mano, o que te conto foi estudado por gente bem mais sábia do que eu. Um deles é Ar-nold Toynbee. Ele diz que quando o ser humano tem pouco desafio, ele não se projeta no mundo. Quando tem muito ele se encolhe.
Pois é, mano, é assim que a gente faz e é. Não somos diferentes do todo, mano. A gente pro-curou atalhos. Quebramos a cara.
Doeu, tu nem te lembra disso? Doeu, mano, podes crer. Doeu prá caralho! Desculpe a má palavra, só ela cabe aqui.
E agora? O que fazer com essa dor, essa experiência que engata cada vez mais gente? O que fazer?
Mano, se unir, se juntar, não em torno da droga que entorpece, como fazíamos, ou como fazes ainda. Precisamos nos unir diante da coragem de ver. Precisamos fazer aquilo que achávamos que fazíamos.
Mano, não mentirei para ti. Estar de cara é pesado como o cão, mas cegos o que podemos fa-zer?
Tenha coragem, mano, vai à luta. Cura-te e vem comigo por que só quem viveu sabe como é a bronca toda.
Vem comigo. Eu preciso de ti, mano. Por nossos manos.
Amo-te.