segunda-feira, 24 de junho de 2013

Raves e Drogas – o segredo que ninguém esconde

 

Neste fim de semana muita gente veio a Curitiba para uma grande festa que aconteceu na cidade, uma rave bastante conhecida. Começou na noite de sexta-feira e terminou no sábado. No mesmo dia, as fotos já foram sendo publicadas. Entre amigos reunidos e pessoas fazendo pose para a câmera, uma imagem me chocou bastante. É uma fotografia que foi tirada na manhã do sábado, e mostra uma garota semi-nua na festa. Sem blusa, sem soutien e com as calças abaixadas, com a calcinha à mostra. E não, ela não estava desmaiada e não havia sido abusada por ninguém. Mesmo nestas condições, ela estava dançando. Para não expor mais ainda a garota, a fotografia não vai ser publicada. Até por que, defendo que não vale a pena condenar uma pessoa por um erro.
Com esta deixa, quero muito comentar sobre uma coisinha que todo mundo sabe, mas mantém em segredo: a relação íntima entre raves e drogas. Esta rave à qual me referi no primeiro parágrafo, nos últimos anos tomou proporções tão grandes que se tornou uma das mais populares do país, cheia de atrações inimagináveis e surpresas deslumbrantes. Eu estive na primeira edição desta festa, e me lembro de que ela já tinha potencial para virar o que é hoje.



Minhas experiências

Há alguns bons anos, eu adorava raves. Ia em todas, sempre convidada por DJs ou organizadores, e fiz muitas amizades das quais, algumas, carrego até hoje. Eu fazia parte do grupo que criticava as “festas comerciais”, que eram frequentadas por pessoas que queriam resgatar a pior parte do Woodstock: a falta de noção. Meu grupo preferia as festas menores, as privates – ou, como nós chamávamos, PVTs. Nos reuníamos para jogar conversa fora, apreciar a música eletrônica, dançar até cansar e fazer novos amigos.

Destes amigos, poucos restaram. Afinal, nem todas as amizades são intensas e resistem ao passar do tempo – isso é normal, confundimos conhecidos com amigos. Um deles foi preso em flagrante por tráfico internacional de drogas e alguns outros morreram de overdose. Dois estão por aí, vivendo em busca de trocados para comprar crack. Por um motivo eu não estou nas ruas junto com eles. Não me deixei levar pelas balinhas coloridas e pelos papeis que derretem na boca. Estes dois elementos, o doce lisérgico e o ecstasy (que na maioria das vezes é uma mistura vagabunda e alucinógena de MDMA, e não uma anfetamina) movimentam, em cada uma das grandes festas, milhares de reais nas mãos de seus vendedores. Eu sei, eu os via.

Eu via o dinheiro que eles guardavam nos bolsos, os bolos de dinheiro que mal cabiam dentro dos bolsos. Ah, eu era curiosa, perguntava tudo. Acho que era tão simpática que eles viviam me oferecendo as drogas, e eu não precisava nem pagar por elas. Mas respondia “não, hoje eu já tomei as minhas” ou “muito obrigada, mas vou recusar porque combinei de dividir com uma amiga”. Inventava qualquer desculpa, mas nunca aceitei. A tal da maconha eu também não fumava. Eu me sentava na roda dos maconheiros, conversava e cantava as músicas que os violões exalavam. Mas nem cigarro eu fumava e nem cerveja eu bebia.

As raves eram muito divertidas, para quem sabia se divertir. Eu sabia, e como sabia! Dançava deixando a música libertar meus movimentos, conversava com todo mundo, tirava centenas de fotos, pedia música aos DJs, que já eram ou se tornaram meus amigos e, quando eu me cansava, dava uma cochilada no pufes do chillout, a área coberta e com música mais tranquila das festas. Meus pais me ligavam a todo momento para saber se estava tudo bem, se eu queria que fossem me buscar e a que horas eu iria para casa. Às vezes tínhamos dificuldade para nos comunicar, porque as festas aconteciam em chácaras muito afastadas e o sinal de celular deixava a desejar. Mas eles sempre sabiam onde eu estava e recebiam notícias durante toda a festa. Eles até já me acompanharam em algumas! (Inclusive, essa foto do post sou eu e meu pai em uma rave)



Mercado (nem tanto) oculto

Mas tem o negócio das drogas. Eu achava que experimentar não tinha problema, e sempre deixava meus amigos à vontade para provarem o que quisessem, apesar de eu não ter este interesse. Algumas amigas experimentaram uma ou duas vezes e nunca mais se interessaram. Outras usaram até se acabar. Uma começou a perder a memória e ter atitudes agressivas de repente. Dizíamos que não dava mais para chegar perto dela. No meio da conversa ela se esquecia de quem eu era e queria me atacar. Que coisa louca, né? Efeito do MDMA, ou do LSD… Um médico saberia explicar melhor.

Nas raves a droga impera. Pode não ser a intenção dos organizadores (e eu só digo isso para defendê-los, porque acredito no contrário), que até contratam seguranças para executar a intolerância com as drogas. Ah, eu já vi um segurança tendo uma overdose, numa festa com 6.000 pessoas, em 2006. As manhãs nessas festas podem ser filmes de terror para os mais observadores. Porque os fritos – aqueles que exageraram nas drogas – amanhecem com caretas grotescas e dançando numa velocidade sobrehumana. Com os corpos dominados pela bala. Um negócio horrível. Eles entram nas caixas de som e as abraçam com todo o amor do mundo, sobem nas estruturas do palco, tiram as roupas, se jogam no chão. São zumbis.

As balas e os doces, naquela época, eram as drogas das raves. Hoje, imagino que ainda sejam. Quem exagera na bala desidrata e tem que tomar muita água. Já vi uma moça ter overdose de água, dá pra acreditar? Tomou tanta que as células se afogaram, foi o que o médico da ambulância me disse – eu era curiosa. A bala também faz a pessoa ficar se mordendo,não sei por quê. Mas as organizações sabem disso, e em 2006 começaram a vender pirulitos nas praças de alimentação. Assim, o frito morde o pirulito em vez de morder a própria boca. Simpático, não?

Lembrando-me de tudo isso, já não penso mais que experimentar não tem problema. Tem problema sim, porque existe um perigo: o risco de gostar. É aquilo que a gente ouve dizer, que quando a pessoa gosta da droga, vai querer sempre mais. Vi este processo acontecendo com tanta gente que não posso negar que seja verdade. Tratando-se de drogas, não dá para pensar duas vezes. É preciso ter sempre um “não” na ponta da língua.