sábado, 1 de junho de 2013

A outra face da química


Químicos clandestinos usam informações da literatura científica para produzir drogas legais. Após seis pessoas morrerem em decorrência do consumo das substâncias, cientista, em atitude rara no meio, vai a público alertar sobre as tragédias.


Novas drogas têm aparecido no mercado e, aproveitando brecha da legislação, são consideradas legais. Acima, a estrutura molecular do cathinone, substância modificada similiar à anfetamina. (foto: Wikimedia Commons)


Na largada do Ano Internacional da Química, um cientista lembra que o mau uso de suas descobertas teve consequências fatais. O químico David Nichols, da Universidade Purdue (EUA), estudou a composição e a sintetização de remédios, para fins medicinais, durante 40 anos.
“Fiquei aturdido. Tenho publicado informações que causaram a morte humana”

Um grupo de químicos amadores liderado pelo escocês David Llewellyn usou as informações dessas pesquisas publicadas para desenvolver drogas legais.

Nichols tomou uma atitude que raramente é vista entre os membros da comunidade científica. Por meio de um artigo publicado na última edição da revista Nature, abriu o jogo sobre o caso e demonstrou toda a sua preocupação em relação aos rumos dos resultados das pesquisas científicas.

“Fiquei aturdido. Tenho publicado informações que causaram a morte humana”, lamenta o químico no artigo.
Tratamento para doenças

A intenção de Nichols era desenvolver substâncias que ajudassem no tratamento do mal de Parkinson e da esquizofrenia. Ele também estudou agentes psicodélicos como o LSD e publicou artigos sobre as propriedades psicoativas de suas moléculas.

Outro composto pesquisado foi o MTA (metiltioanfetamina), de estrutura similar a do ecstasy. O propósito era desvendar sua ação sobre o cérebro em busca de tratamentos para a depressão.
“Essa questão, que nunca fez parte da minha pesquisa, agora me assombra”

A partir das informações publicadas sobre as pesquisas de Nichols, químicos amadores sintetizaram as substâncias em cápsulas sem a realização de qualquer tipo de teste de segurança.

Depois de manufaturadas, as drogas foram vendidas legalmente com um duvidoso aviso de que não deveriam ser consumidas por humanos. No entanto, em 2002, seis pessoas morreram em decorrência do uso dessas substâncias.

Como os compostos foram descobertos recentemente, ainda não há uma legislação em vigor para banir o uso dessas moléculas. Químicos amadores como o escocês David Llewellyn aproveitam essa zona cinzenta do período em que a droga ainda não foi proibida para lucrar com as substâncias.

Os usuários, no entanto, vêm pagando com a própria vida com o uso dessas drogas(até agora) legais.