sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Adicção sexual

Quando o sexo vira obsessão


O Tempo

Compulsões: Há pessoas que nunca ficam saciadas, independentemente do quanto repetem aquilo que lhes dá muito prazer. Limite entre o saudável e o doentio nem sempre é claro

O que é ser compulsivo ou ter compulsão por alguma coisa? Alcoólatras são compulsivos por bebida? Dependentes químicos são compulsivos por drogas? Existe compulsão por comida? E por sexo? Terão todas as compulsões a mesma origem? O jornal O TEMPO inicia, neste domingo, uma série de reportagens que abordam diferentes tipos de compulsões, para tentar entender o mecanismo que move cada uma, começando pela compulsão sexual.

Há pessoas para as quais a sexualidade está longe de ser saudável e a vontade de fazer sexo nunca é saciada, independentemente do número e da frequência das relações. Uma primeira constatação é que o distúrbio atinge mais os homens que as mulheres.

"Nos homens, o nome correto é donjuanismo, ou satiríase, enquanto as mulheres viciadas em sexo são chamadas de ninfomaníacas", explica o ginecologista, sexólogo e coordenador do setor de Sexologia do Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte, Gerson Lopes.

Não há números precisos nem explicação definitiva, mas a experiência médica indica que 90% dos casos acomete os homens por volta dos 35 anos.

"Atendi um grande empresário em São Paulo, cuja vida girava em torno de sexo. Ele chegou num ponto que não fazia mais questão de esconder da esposa que ele saía com garotas de programa e com colegas de trabalho. A pessoa vai ficando fora de controle", conta.

Lopes diz que em seu consultório recebe pacientes recomendados por ginecologistas e urologistas, já que as pessoas se recusam a admitir que são compulsivas em relação ao sexo.

"Geralmente as pessoas procuram o terapeuta porque a esposa ou o marido se queixa delas, aí elas não aguentam ser rejeitadas. Os compulsivos sexuais são pessoas com graves problemas emocionais e de relacionamento e nunca ficam satisfeitas com as relações sexuais, independente do número de vezes que façam", explica Lopes.

Origem

Assim como as outras compulsões, por droga ou bebida, o distúrbio pode ser tratado com medicamentos e terapia. "Para indicar o tratamento, temos que identificar as possíveis causas, que variam. Podem ser biológicas, genéticas ou vindas do histórico de vida da pessoa", explica o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Maurício Viotti Daker.

Para o Daker, a compulsão geralmente está associada a outros distúrbios, como transtorno bipolar, esquizofrenia, depressão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

"Os tratamentos costumam ter resultados, mas é preciso conhecer a história da pessoa para buscarmos as causas", conclui.

Dasa

O empresário H., que mora em uma cidade do Sul de Minas Gerais e pede para não ser identificado, faz questão de contar sua história para ajudar as pessoas que ainda não encontraram uma saída. Ele já foi a vários programas de TV e de rádio para relatar o seu caso, sempre sem se deixar identificar, e trabalha como voluntário fazendo palestras em presídios.

Para alcançar esse equilíbrio, faz parte do grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa) - www.slaa.org.br -, entidade fundada à semelhança dos Alcoólatras Anônimos e que funciona a partir dos mesmos princípios (entre eles, admitir que se tem o problema e assumir a responsabilidade de se tratar). "Há 13 anos estou nessa luta. Estou em recuperação. Assim como qualquer viciado, seja em droga, seja em bebida, ou outras coisas, tenho que ficar em constante alerta para não ter uma recaída. Por isso, participo do Dasa, grupo que nos ajuda a lidar com o assunto. Porque uma coisa é ir ao terapeuta e ele ouvir sua história, mas ele mesmo não ter vivido o problema. Outra coisa é você conversar com quem passa os mesmos problemas", diz o empresário.

H. relata que quando percebeu que era viciado em sexo, já estava muito envolvido com várias pessoas. "Casei umas dez vezes. Eu me relacionava com várias mulheres ao mesmo tempo e, se pudesse, fazia sexo todos os dias, várias vezes, com todas elas. Cheguei a ir ao Rio de Janeiro no mesmo final de semana para rever duas ex-namoradas e chorei para as duas, pedindo que elas voltassem. Eu sabia que estava mentindo, mas não conseguia me controlar. Mas hoje estou bem, estou casado há sete anos, me mantenho fiel e tenho três filhos", diz.

O empresário explica que, mais difícil do que o tratamento é a pessoa admitir que está doente. "O primeiro passo é se assumir doente. Quando consegui isso, eu me internei em uma clínica no interior de São Paulo. Depois dessa fase, comecei a participar do Dasa".

Mulher

Também sem querer ser identificada, a administradora A. conta a sua história, com muita tristeza na voz. Aos 30 anos, ela faz tratamentos com remédios para controlar a libido, já esteve nove meses internada na mesma clínica aonde H. se tratou e também faz parte do Dasa.

Sua compulsão sexual tem origem na infância. Ela foi estuprada aos 5 e aos 7 anos por dois homens diferentes. Ela nunca contou sua história a ninguém porque teve vergonha, e só aos 17 anos foi revelar os abusos em uma sessão de terapia. "Era um namorado atrás do outro, não conseguia ficar sozinha, me masturbava, às vezes fazia muito sexo. Só quando terminei a última relação, há dois anos, e entrei em crise de abstinência, vi que estava doente".


Teste De Dependência Do Amor e Sexo

As 40 perguntas abaixo lhe ajudarão a identificar possíveis SINTOMAS de dependência de amor e sexo. Contudo, não são um diagnóstico infalível. As respostas negativas não indicam ausência da doença. Além do que, os dependentes possuem condutas diferentes entre si, o que resulta em diferentes formas de respondê-las:

Você já tentou controlar quanto sexo faria, ou com que freqüência encontraria alguém?

Você se acha incapaz de deixar de ver uma pessoa específica, mesmo sabendo que encontrá-la é destrutivo para você?

Você sente que não quer que ninguém saiba das suas atividades sexuais ou amorosas? Você sente que precisa esconder essas atividades dos outros - amigos, família, colegas de trabalho, orientadores, etc?

Você se sente "alto" ao fazer sexo e/ou se envolver em Relacionamentos?

Você já fez sexo em momentos ou lugares inadequados, e/ou com pessoas inadequadas?

Você faz promessas, ou estabelece regras para si mesmo em relação a seu comportamento sexual ou amoroso, e que percebe que não pode cumprir?

Você fez ou faz sexo com alguém que não queria fazer?

Você acha que o sexo e/ou um relacionamento vai tornar sua vida tolerável?

Você já sentiu que TINHA que fazer sexo?

Você acha que alguém pode "consertar" você?

Você tem uma lista, escrita ou não, dos parceiros que teve?

Você se sente desesperado ou ansioso quando está longe de seu companheiro, ou parceiro, sexual?

Você perdeu a conta dos parceiros sexuais que teve?

Você se sente arrebatado pela necessidade de um parceiro de sexo ou futuro companheiro?

Você faz, ou fez, sexo apesar das conseqüências (o risco de ser pego ou de contrair herpes, gonorréia, Aids, etc.)?

Você acha que tem um padrão de repetir relacionamentos ruins?

Você sente que seu único, ou "principal", valor num relacionamento é seu desempenho sexual, ou habilidade para dar apoio emocional?

Você se sente como fantoche inanimado se não houver alguém com quem possa flertar? Você se sente que não está "realmente vivo" se não estiver com seu parceiro amoroso/sexual?

Você se sente com o "direito" de fazer sexo?

Você se encontra num relacionamento que não consegue Deixar?

Você já ameaçou sua estabilidade financeira, ou posição na sociedade, ao manter um parceiro sexual?

Você acha que os problemas da sua "vida amorosa" vêm de não ter a quantidade suficiente ou tipo certo de sexo? Ou de continuar se relacionando com a pessoa errada?

Você já teve um relacionamento sério ameaçado, ou rompido, por causa de atividades extraconjugal?

Você acha que a vida não teria sentido sem um relacionamento amoroso, ou sem sexo? Você sente que não teria identidade se não fosse amante de alguém?

Você se flagra flertando, ou sendo sedutor, com alguém mesmo quando não tenha essa intenção?

O seu comportamento sexual, e/ou amoroso, afeta sua reputação?

Você faz sexo, e/ou tem "relacionamentos", para lidar ou escapar dos problemas da vida?

Você se sente desconfortável em relação a sua masturbação por causa da freqüência, das fantasias relacionadas, dos acessórios que usa e/ou dos lugares em que pratica?

Você se envolve em prática de voyerismo, exibicionismo, etc, de formas que lhe trazem desconforto ou dor?

Você se percebe precisando se dedicar e variar cada vez mais suas atividades amorosas, ou sexuais, apenas para alcançar um nível "aceitável" de alívio físico e emocional?

Você precisa fazer sexo, ou se "apaixonar", para sentir um "verdadeiro homem" ou "uma verdadeira mulher"?

Você sente que seu comportamento amoroso e sexual é tão gratificante quanto empurrar uma porta giratória? Você está exausto?

Você está com dificuldade de se concentrar em outras áreas de sua vida por causa de pensamentos, ou sentimentos, relacionados a alguém, ou a sexo?

Você se sente obsessivo com determinada pessoa, ou atividade sexual específica, mesmo que esse pensamento lhe cause dor, ansiedade ou desconforto?

Você já desejou poder parar, ou controlar, suas atividades amorosas e sexuais por um determinado período de tempo? Já desejou ser menos dependente emocionalmente?

Você acha que a dor na sua vida só aumenta, não importa o que você faça? Tem medo que no fundo você não tenha valor?

Você sente que lhe falta dignidade e inteireza?

Você sente que sua vida amorosa/sexual afeta sua espiritualidade de forma negativa?

Você sente que sua vida está ingovernável por causa de seu comportamento sexual, e/ou amoroso, ou das suas excessivas necessidades dependentes?

Você já pensou que poderia fazer outras coisas na sua vida, se não fosse tão guiado pela busca sexual/amorosa?