
quinta-feira, 7 de março de 2013
PROCURANDO EU
O Medo do Adicto
Recebi esse e-mail repassado por um amigo e gostaria de dividí-lo com vocês. Uma família em recuperação é uma rede de segurança para o adicto e para o co-dependente!
Todos que me conhecem sabem o quanto estar em recuperação me ajudou a lidar com o adicto e o quanto ele estar em recuperação o ajudou a lidar comigo. Hoje a minha realidade é outra, hoje eu estou em recuperação e o meu familiar dep. quimico não, ele apenas está "limpo", e isso tem dificultado muito as coisas para mim, mas infelizmente tem dificultado muito mais para ele, pois hoje posso tomar a descisão de me desligar dos problemas dele e focar na minha rcuperação, hoje ele vive em outro lar, que infelizmente não quer recuperação, mas eu só posso modificar a mim mesma, só posso olhar para minha própria recuperação, pois olhar para a recuperação alheia tira o foco da minha própria!
Segue o precioso e-mail que recebi:
Repassando.
O medo do Adicto
Estou completando hoje 56 dias dos 60 dias em que estou nesta clinica de recuperação. São 56 dias limpo, 56 dias em que ganhei uma nova perspectiva de vida sem a droga.
Estou feliz aqui, ganhei verdadeiros amigos que me entendem, que me ajudam, que compartilham seus problemas, confidenciam medos, esperanças. Compreendem a minha compulsão, meu desejo insano por drogas, todos nós aqui estamos passando pelos mesmos problemas.
Ganhei uma serie de conhecimentos que me ajudam e ajudaram a combater esta loucura. Descobri principalmente que o problema que me atormenta não é só a droga, ela é apenas um ponto dentro de pontos, ela é bengala que necessito para poder caminhar, ela é a desculpa para meus medos e minhas ansiedades. Um porto seguro para tudo aquilo que não tenho coragem de fazer ou ser.
Aprendi que não basta apenas ¨Eu¨ parar de usar drogas, ¨Eu¨ tenho de deixar de ser uma droga, ¨Eu ¨ tenho que parar de pensar como Adicto. Tenho de mudar atitudes, tenho de deixar de ser o centro do universo para ser parte dele. Isto é que é o verdadeiro sentido da ¨Recuperação¨.
Meus defeitos acumulados por anos, outros desenvolvidos foram moldando minha personalidade e fazendo parte essencial de toda a lou-cura que me tornei hoje, isto, é que tenho de Mudar. Mudar a mim não a droga e se não o fizer isto; se não mudar meu interior; estarei apenas mudando meu vício, minha droga.
Hoje deslumbro um outro pensar, um outro mundo, a minha serenidade atingida me acalma e me torna um ser humano mais capaz, um ser que não precise mais de desculpas para suas fraquezas, para sua falta de coragem diante da vida, diante das pessoas, dos sentimentos, do mundo. Que não precise mais se drogar para se anular ou para se fazer valer como gente perante uma situação ou uma decisão.Aqui na clinica me sinto protegido, aqui tenho limites, me sinto cercado por muralhas, tenho normas, regras e responsabilidades. Sinto-me amparado por amigos, socorrido por terapeutas, tenho coisas que nunca pude presenciar de verdade, sou um ser que a cada dia conquista uma batalha e agradece por ter tido mais um dia de sobriedade.
Confesso que tenho medo do mundo lá fora, faltam apenas 4 dias para minha internação acabar, logo estarei lá fora e estarei por minha conta. Claro que terei apoio dos amigos conquistados, todos estarão sempre prontos a me ¨Ajudar¨, as ferramentas que aprendi estarão ao meu dispor, todo o conhecimento adquirido terá de ser colocado por mim em prática. Mas, apesar de tudo isto, confesso, tenho medo. Mas meu medo maior não é do mundo lá fora, não são dos amigos dos tempos de uso de drogas que deixei, não são dos lugares que freqüentei, nem da boca de fumo da qual freqüentava e me sentia sócio. Meu maior medo é o da minha ¨Casa¨, parace incrível, este é o lugar hoje mais assustador para mim.

Dos amigos de uso eu me afasto, os lugares eu evito, a boca eu nem passo perto, mas, da minha casa, é complicado!
Todo aquele ambiente esta de braços abertos a minha espera. Todas as atitudes alheias estão a minha espreita, os ressentimentos causados ainda estão a flor da pele, o caos que existiu um dia ainda impera.
¨Meus familiares¨ ainda são o que deixei a cerca de 60 dias atrás. Eles não mudaram, não se redescobriram, não se recuperaram. Vou encontrar as mesmas pessoas, as mesmas atitudes, os mesmos sentimentos, os mesmos medos, os mesmos defeitos, os mesmos conflitos, a mesma pseudo-sabedoria. Tudo aquilo que conheço de todos a anos. Vou encontrar toda a insanidade que ficou, isto me trás medo, o medo de que não tenha condições de suportar todo o descontrole que é a ¨minha família¨.

Sei que sou portador de uma doença sem cura, porém, sei que minha doença tem controle desde que eu me utilize de todas as armas que aprendi. Hoje tenho conhecimento que ¨Meu familiar¨ também é portador de uma doença, na qual a ¨negação¨ e um dos seus sintomas mais fortes. Admitir para si que erros foram cometidos e que sua vida esta baseada em mentiras é para ¨Ele¨ inaceitável, ficando mais fácil encontrar culpados, ficando mais fácil ser uma vitima. Este não aceitar me causa temor, sou um doente em ¨Recuperação¨ que vai conviver com doentes que não aceitam a sua doença e nem admitem uma ¨Recuperação de si¨.
Temo por ¨minha recuperação¨, pois, as conquistas de cada 24h que tive me são extremamente valiosas, a dor para conquistá-las me foram muito doídas e não quero perder a guerra que apenas comecei a vencer. Fazer-me dono de novo da minha vida me faz sentir tudo de bom que posso ter, me faz ver todas as dores que causei a mim e que não quero mais ocasionar.

Voltar para ¨Minha casa¨ me atemoriza porque vou encontrar tudo aquilo que por minha incompetência como ser humano me deixei possuir. As mesmas idéias, os mesmos preconceitos, todas as mentiras ditas como verdades ainda estarão lá instaladas. Eu mudei, mas, meu familiar infelizmente não. Meu familiar ainda estará cheio de sua arrogância, cheio de sua sabedoria alheia e de sua ignorância de si.
Tenho medo da ¨Casa¨ que deixei a cerca de 56 dias atrás, que esta ¨Casa¨ acabe com todo o aprendizado que adquiri e todo o controle que hoje e só por hoje, agora e só por agora, tenho sobre minha doença. Minha ¨Casa¨ possui todas as ferramentas, todas as facilidades para que eu venha a fraquejar, tenho todas as chances de me deixar levar de volta ao uso de drogas. Quero que minha sobriedade impere sobre mim hoje e quero que isto permaneça inalterado.

Sei que ¨Meu Familiar¨ não é culpado por minha drogadição. Ele é uma pessoa que também sofre com a sua compulsão de Controle e Sabedoria. Estando cego por suas drogadições conquistadas, por seus conceitos preconceituosos, por seus conselhos concedidos e não aplicados. Sinto que sua drogadição pode me fazer voltar as minhas drogadições.
Aprendi aqui na clinica que tenho que evitar lugares e pessoas, para que estes não venham a atrapalhar a minha Recuperação. Tenho muito ainda que fazer. Percebo que terei muitos desafios a enfrentar e entre eles esta ¨O Meu Familiar¨. Ele é tudo aquilo que ¨Eu¨ sempre cultuei, ele é aquilo que eu sempre quis que ele fosse, os seus defeitos de caráter são tudo o que eu preciso para continuar a ser um drogado e estes defeitos ainda estão latentes e podem contagiar-me.
Talvez ¨Eu¨ tenha que deixá-lo no meio do caminho.Me ¨desligando¨ dele com Amor.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Recuperação e seus obstáculos
Alguns apontamentos sobre recuperação
Recuperar remete para passado, recuperar faz lembrar algo que se perdeu e que se tenta voltar a ter.
Não podemos voltar atrás no tempo, mas o que fazemos com o nosso passado, fazêmo-lo no presente, já que o futuro... é sempre no futuro. Resta-nos o presente para recuperar.
Será que se consegue recuperar sozinho?
Será que se consegue recuperar do que nem sequer se compreende?
Será que se consegue recuperar de umas coisas mantendo todas as outras?
Será que se consegue recuperar mas "só um bocadinho"?
Estas perguntas lembram-me as ilusões que se escondem por detrás de tanta recaída e de tanta pseudo-recuperação, na qual as pessoas apenas se enterram cada vez mais na mesma história de dor e de aniquilação.
Recuperar não significa apenas parar com o comportamento compulsivo. Esse comportamento compulsivo não apareceu do ar, não veio com uns cromos, nem foi uma intoxicação alimentar. Esses comportamentos têm causas profundas com imensas ramificações na complexidade da vida de cada um e com ramificações em aspectos da identidade de cada um, ou pelo menos naquilo a que cada um se habituou a viver e a acreditar.
Podem passar-se anos sem consumos ou sem os comportamentos da adicção de eleição e ao primeiro desabar, ao primeiro desgosto, à primeira felicidade, um momento de falta de consciência do que uma adicção é... é preciso tão pouco para recaír e tanto para recuperar.
Para uma recuperação poder chamar-se recuperação, é preciso alguém que compreenda, é preciso compreender, é preciso mudar tudo, mudar rotinas, mudar de companhias, mudar o cenário, os pequenos rituais, os pequenos gestos com associações que se prendem até aos mais ínfimos detalhes.
Para uma recuperação se chamar recuperação é preciso ir lá bem ao fundo, lá bem atrás e não é viável ser-se objectivo sozinho, e muito menos se for mal acompanhado.
Mal acompanhado por todos os que pertenceram à dinâmica de adição, desde os que eram iguais aos que "queriam ajudar".
Em recuperação outros precisam de surgir, com nova informação, com um novo respeito, uma identificação sincera e profunda, uma proposta séria e uma disponibilidade esclarecida para que a recuperação tenha rede no trapézio e se possa chamar recuperação.
É por isso que pedir ajuda é o primeiro passo. Reconhecer que temos um grande problema, que somos impotentes perante esse problema e que a bola de neve que rola descontrolada dando cabo de todo o nosso mundo; leva-nos a pedir ajuda e ao segundo passo que nos diz que algo nos vai ajudar, algo mais forte irá fazer toda a diferença.
Quando às famílias, precisam de recuperar também, e será melhor que não esperem que seja o adicto a fazer todo o trabalho. Por mais absurdo que pareça, por mais certeza que tenham da vossa sanidade e do vosso equilíbrio e lucidez; por favor façam a vossa dinâmica familiar passar pelo teste de uma terapia de família. Frequentem reuniões de co-dependentes anónimos, informem-se...
Não se aprende a mudar mantendo tudo sempre igual.
A adicção é uma doença de família.
Sempre.
O primeiro obstáculo é, estranhamente, o facto de tantos adictos não admitirem que têm um problema, logo não procurarem recuperação.
Tomar consciência de que existe um problema pode ser mais complexo do que parece na medida em que existe sempre quem o encoraje a continuar, seja o "marketing" relacionado com as drogas ilegais ou mais socialmente rejeitadas, seja a nossa cultura de obstinação no caso das dependências socialmente encorajadas como o trabalho, as dietas, a internet, o computador e a televisão...
Aceitar que existe uma compulsão, uma incapacidade de parar e um rasto de danos atrás dos nossos passos, acontece apenas quando algo de muito grave vem finalmente chapar-nos na cara.
Um AVC ou um esgotamento para o trabalhador compulsivo, um diagnóstico de anoréxia nervosa para quem é dependente das dietas, um esgotamento para quem é adicto às limpezas e arrumação...
Um enfarte para o comedor compulsivo.
Uma overdose...
Um acidente de automóvel para quem conduzia embriegado...
Uma perna partida no adicto aos resultados no desporto...
Algo que pára o tempo e confronta o adicto com a sua própria consciência, pode ser necessário para que este assuma que existe um problema. E até lá pode passar imenso tempo.
Uma auto-análise sincera mais antecipada podería poupar muito sofrimento e antecipar assim a recuperação.
Uma adicção é um hábito ou aspecto que toma conta de todas as outras áreas de vida. É uma doença, que se manifesta através de um ou mais comportamentos compulsivos sejam eles comportamentos socialmente encorajados ou associados a um estigma de vergonha.
Na dúvida vale a pena perguntar em contexto de terapia a quem tem ferramentas de um diagnóstico sério, sendo importante não omitir factos, nem retorcer a verdade.
Outro importante obstáculo à recuperação é o facto de não ser do conhecimento geral o significado da palavra "recuperação" em contexto de recuperação nas dependências.
Muitas pessoas confundem recuperação com abstinência. Muitas pessoas confudem recuperação com substituição. Existem também aqueles que definem a recuperação pela aparente "vida normal" (trabalhar, estudar, casar...).
Este desconhecimento é comum tanto entre dependentes como aqueles que o rodeiam com um dano enorme, na medida em que a cada recaída destas "pseudo-recuperações" aumenta a vergonha e a culpa do dependente.
É triste pensar que culturalmente dividimos as doenças em: "coitadinho", "fruta da época", "mau carácter" e "fraco".
Temos assim na categoria "coitadinho" todos os que padecem de doenças graves que se apanham de forma arbitrária sem conecção com nenhum estigma sexual, ou de comportamentos ditos de risco na categoria "fruta da época" temos quase todas as doenças das vias respiratórias no Inverno, alergias na Primavera, gastroentrites no Verão e de novo constipações no Outono.
Na categoria "mau carácter" temos o consumo de droga e alcool e todas as doenças que se contraem por comportamentos de risco.
Finalmente, na categoria "fraco" temos as depressões, esgotamentos e outras do fórum psicológico.
Isto é lamentável, porque doenças, são doenças. Precisam de um diagnóstico, tiveram uma causa que precisa de ser analisada e desenvolvem-se com sofrimento para o paciente, só com tratamento adequado em conjunto com as forças espantosas de regeneração natural do corpo e do espírito, podem ser controladas.
Isto é verdade para todas as doenças.
Assim, a ignorância é sempre um entrave à recuperação. Vive de estigmas, de preconceitos, de diferenciações arbitrárias e de uma subjectividade absurda e contra-producente.
Todas as dependências são uma doença, dolorosa e que leva à morte se não for devidamente acompanhada por quem sabe e tratada em regime de recuperação efectiva.
Uma recuperação efectiva pressupõe uma auto-análise sustentada de todo um percurso, de uma ferida dentro, de um passado, de causas emocionais e físicas, de uma profunda alteração de vida, de hábitos, de companhias, uma profunda transformação na auto-imagem, na forma como o indivíduo se vê e interpreta a sua realidade. Uma recuperação pressupõe novos critérios, e uma abordagem de si mesmo e do mundo, radicalmente diferente.
Se não houver um profundo trabalho interior, com um input significativo de novas percepções e emoções, bem como o controlo amoroso e respeitador de todo o condicionamento, em particular do interior, o chamado "buraco negro"... nada é recuperação. É tudo cosmética, condenada a borrar no próximo dia de chuva.
A fraca prevenção à recaída.
Recaída é um termo paradoxal em dependências, na medida em que a recuperação volta à estaca zero quando se recai. Ou seja, é como se não tivesse havido uma recaída e sim apenas uma continuação, mais do mesmo, um confronto com o "afinal ainda está tudo na mesma".
Prevenção á recaída só é possível quando se compreende a dependência em si. O impacto psicológico e principalmente físico das dependências.
A maior parte das pessoas encara a recaída como uma prova de fraqueza de carácter e isto também se passa com a maior parte dos dependentes activos. De tanto "recaírem" acabam por decidir que não há saída e decidem que nunca irão entrar em recuperação, para sofrer horrores e voltar tudo ao mesmo daí a algum tempo.
Culpa e vergonha são mais do que um sentimento sobranceiro, são como uma avalanche de tal forma avassaladora que é preciso recorrer rápido ao objecto de eleição na dependência para afogar rápido toda essa dor.
Além disso existe a componente física de cada dependência. Essa dependência física prega a maior partida ao dependente, porque troca todos os sinais, sobrevivência confunde-se com dependência e a luta que se trava conscientemente nem se compara à luta química que se vive no corpo e que a dependência ganha por maioria de razão química, entenda-se. A química não tem moral. E é por isso que recaír não é ser fraco, é ser feito de carne e osso. O resto é apenas ignorância. O tal obstáculo à recuperação.
Não podemos voltar atrás no tempo, mas o que fazemos com o nosso passado, fazêmo-lo no presente, já que o futuro... é sempre no futuro. Resta-nos o presente para recuperar.
Será que se consegue recuperar sozinho?
Será que se consegue recuperar do que nem sequer se compreende?
Será que se consegue recuperar de umas coisas mantendo todas as outras?
Será que se consegue recuperar mas "só um bocadinho"?
Estas perguntas lembram-me as ilusões que se escondem por detrás de tanta recaída e de tanta pseudo-recuperação, na qual as pessoas apenas se enterram cada vez mais na mesma história de dor e de aniquilação.
Recuperar não significa apenas parar com o comportamento compulsivo. Esse comportamento compulsivo não apareceu do ar, não veio com uns cromos, nem foi uma intoxicação alimentar. Esses comportamentos têm causas profundas com imensas ramificações na complexidade da vida de cada um e com ramificações em aspectos da identidade de cada um, ou pelo menos naquilo a que cada um se habituou a viver e a acreditar.
Podem passar-se anos sem consumos ou sem os comportamentos da adicção de eleição e ao primeiro desabar, ao primeiro desgosto, à primeira felicidade, um momento de falta de consciência do que uma adicção é... é preciso tão pouco para recaír e tanto para recuperar.
Para uma recuperação poder chamar-se recuperação, é preciso alguém que compreenda, é preciso compreender, é preciso mudar tudo, mudar rotinas, mudar de companhias, mudar o cenário, os pequenos rituais, os pequenos gestos com associações que se prendem até aos mais ínfimos detalhes.
Para uma recuperação se chamar recuperação é preciso ir lá bem ao fundo, lá bem atrás e não é viável ser-se objectivo sozinho, e muito menos se for mal acompanhado.
Mal acompanhado por todos os que pertenceram à dinâmica de adição, desde os que eram iguais aos que "queriam ajudar".
Em recuperação outros precisam de surgir, com nova informação, com um novo respeito, uma identificação sincera e profunda, uma proposta séria e uma disponibilidade esclarecida para que a recuperação tenha rede no trapézio e se possa chamar recuperação.
É por isso que pedir ajuda é o primeiro passo. Reconhecer que temos um grande problema, que somos impotentes perante esse problema e que a bola de neve que rola descontrolada dando cabo de todo o nosso mundo; leva-nos a pedir ajuda e ao segundo passo que nos diz que algo nos vai ajudar, algo mais forte irá fazer toda a diferença.
Quando às famílias, precisam de recuperar também, e será melhor que não esperem que seja o adicto a fazer todo o trabalho. Por mais absurdo que pareça, por mais certeza que tenham da vossa sanidade e do vosso equilíbrio e lucidez; por favor façam a vossa dinâmica familiar passar pelo teste de uma terapia de família. Frequentem reuniões de co-dependentes anónimos, informem-se...
Não se aprende a mudar mantendo tudo sempre igual.
A adicção é uma doença de família.
Sempre.
Obstáculos à recuperação
O primeiro obstáculo é, estranhamente, o facto de tantos adictos não admitirem que têm um problema, logo não procurarem recuperação.
Tomar consciência de que existe um problema pode ser mais complexo do que parece na medida em que existe sempre quem o encoraje a continuar, seja o "marketing" relacionado com as drogas ilegais ou mais socialmente rejeitadas, seja a nossa cultura de obstinação no caso das dependências socialmente encorajadas como o trabalho, as dietas, a internet, o computador e a televisão...
Aceitar que existe uma compulsão, uma incapacidade de parar e um rasto de danos atrás dos nossos passos, acontece apenas quando algo de muito grave vem finalmente chapar-nos na cara.
Um AVC ou um esgotamento para o trabalhador compulsivo, um diagnóstico de anoréxia nervosa para quem é dependente das dietas, um esgotamento para quem é adicto às limpezas e arrumação...
Um enfarte para o comedor compulsivo.
Uma overdose...
Um acidente de automóvel para quem conduzia embriegado...
Uma perna partida no adicto aos resultados no desporto...
Algo que pára o tempo e confronta o adicto com a sua própria consciência, pode ser necessário para que este assuma que existe um problema. E até lá pode passar imenso tempo.
Uma auto-análise sincera mais antecipada podería poupar muito sofrimento e antecipar assim a recuperação.
Uma adicção é um hábito ou aspecto que toma conta de todas as outras áreas de vida. É uma doença, que se manifesta através de um ou mais comportamentos compulsivos sejam eles comportamentos socialmente encorajados ou associados a um estigma de vergonha.
Na dúvida vale a pena perguntar em contexto de terapia a quem tem ferramentas de um diagnóstico sério, sendo importante não omitir factos, nem retorcer a verdade.
Obstáculos à recuperação 2
Outro importante obstáculo à recuperação é o facto de não ser do conhecimento geral o significado da palavra "recuperação" em contexto de recuperação nas dependências.
Muitas pessoas confundem recuperação com abstinência. Muitas pessoas confudem recuperação com substituição. Existem também aqueles que definem a recuperação pela aparente "vida normal" (trabalhar, estudar, casar...).
Este desconhecimento é comum tanto entre dependentes como aqueles que o rodeiam com um dano enorme, na medida em que a cada recaída destas "pseudo-recuperações" aumenta a vergonha e a culpa do dependente.
É triste pensar que culturalmente dividimos as doenças em: "coitadinho", "fruta da época", "mau carácter" e "fraco".
Temos assim na categoria "coitadinho" todos os que padecem de doenças graves que se apanham de forma arbitrária sem conecção com nenhum estigma sexual, ou de comportamentos ditos de risco na categoria "fruta da época" temos quase todas as doenças das vias respiratórias no Inverno, alergias na Primavera, gastroentrites no Verão e de novo constipações no Outono.
Na categoria "mau carácter" temos o consumo de droga e alcool e todas as doenças que se contraem por comportamentos de risco.
Finalmente, na categoria "fraco" temos as depressões, esgotamentos e outras do fórum psicológico.
Isto é lamentável, porque doenças, são doenças. Precisam de um diagnóstico, tiveram uma causa que precisa de ser analisada e desenvolvem-se com sofrimento para o paciente, só com tratamento adequado em conjunto com as forças espantosas de regeneração natural do corpo e do espírito, podem ser controladas.
Isto é verdade para todas as doenças.
Assim, a ignorância é sempre um entrave à recuperação. Vive de estigmas, de preconceitos, de diferenciações arbitrárias e de uma subjectividade absurda e contra-producente.
Todas as dependências são uma doença, dolorosa e que leva à morte se não for devidamente acompanhada por quem sabe e tratada em regime de recuperação efectiva.
Uma recuperação efectiva pressupõe uma auto-análise sustentada de todo um percurso, de uma ferida dentro, de um passado, de causas emocionais e físicas, de uma profunda alteração de vida, de hábitos, de companhias, uma profunda transformação na auto-imagem, na forma como o indivíduo se vê e interpreta a sua realidade. Uma recuperação pressupõe novos critérios, e uma abordagem de si mesmo e do mundo, radicalmente diferente.
Se não houver um profundo trabalho interior, com um input significativo de novas percepções e emoções, bem como o controlo amoroso e respeitador de todo o condicionamento, em particular do interior, o chamado "buraco negro"... nada é recuperação. É tudo cosmética, condenada a borrar no próximo dia de chuva.
Obstáculos à recuperação 3
A fraca prevenção à recaída.
Recaída é um termo paradoxal em dependências, na medida em que a recuperação volta à estaca zero quando se recai. Ou seja, é como se não tivesse havido uma recaída e sim apenas uma continuação, mais do mesmo, um confronto com o "afinal ainda está tudo na mesma".
Prevenção á recaída só é possível quando se compreende a dependência em si. O impacto psicológico e principalmente físico das dependências.
A maior parte das pessoas encara a recaída como uma prova de fraqueza de carácter e isto também se passa com a maior parte dos dependentes activos. De tanto "recaírem" acabam por decidir que não há saída e decidem que nunca irão entrar em recuperação, para sofrer horrores e voltar tudo ao mesmo daí a algum tempo.
Culpa e vergonha são mais do que um sentimento sobranceiro, são como uma avalanche de tal forma avassaladora que é preciso recorrer rápido ao objecto de eleição na dependência para afogar rápido toda essa dor.
Além disso existe a componente física de cada dependência. Essa dependência física prega a maior partida ao dependente, porque troca todos os sinais, sobrevivência confunde-se com dependência e a luta que se trava conscientemente nem se compara à luta química que se vive no corpo e que a dependência ganha por maioria de razão química, entenda-se. A química não tem moral. E é por isso que recaír não é ser fraco, é ser feito de carne e osso. O resto é apenas ignorância. O tal obstáculo à recuperação.
Obstáculos à recuperação 4
"Estou curado!"
Sim, uma desintoxicação e estou curado. Umas férias e estou curado. Uma semana sem doces e estou curado.
3 dias de desintoxicação, 3 meses... é indiferente. Dependências são uma doença de vida. Como podería uma doença com a amplidão de uma vida curar-se com uma semana, ou meio ano que seja...
Quanto tempo leva a modificar toda a minha vida...? 3 dias? meio ano?
Claro que leva tempo. Não há "estou curado":
Com muita dedicação e amor próprio há:
- Estou em recuperação. Todos os dias, todos os dias da minha vida. Estou a criar uma nova vida por dentro, para conseguir uma nova vida por fora.
A família, os amigos, irão ficar ansiosamente à espera da grande notícia: Fulano está curado!
Na revista cor de rosa também aparecem os artistas "curados" das suas dependências...
É de uma ingenuidade confrangedora. Não se curam dependências. Transformam-se vidas. E transformar uma vida é como nascer de novo e ter de aprender tudo outra vez.
O obstáculo nº 4 passa então, também pela ignorância.
E vai no 4º aspecto da ignorância enquanto obstáculo à recuperação.
Talvez neste ponto se tenha já tornado suficientemente óbvio que ignorância não compensa.
Sim, uma desintoxicação e estou curado. Umas férias e estou curado. Uma semana sem doces e estou curado.
3 dias de desintoxicação, 3 meses... é indiferente. Dependências são uma doença de vida. Como podería uma doença com a amplidão de uma vida curar-se com uma semana, ou meio ano que seja...
Quanto tempo leva a modificar toda a minha vida...? 3 dias? meio ano?
Claro que leva tempo. Não há "estou curado":
Com muita dedicação e amor próprio há:
- Estou em recuperação. Todos os dias, todos os dias da minha vida. Estou a criar uma nova vida por dentro, para conseguir uma nova vida por fora.
A família, os amigos, irão ficar ansiosamente à espera da grande notícia: Fulano está curado!
Na revista cor de rosa também aparecem os artistas "curados" das suas dependências...
É de uma ingenuidade confrangedora. Não se curam dependências. Transformam-se vidas. E transformar uma vida é como nascer de novo e ter de aprender tudo outra vez.
O obstáculo nº 4 passa então, também pela ignorância.
E vai no 4º aspecto da ignorância enquanto obstáculo à recuperação.
Talvez neste ponto se tenha já tornado suficientemente óbvio que ignorância não compensa.
Obstáculos à recuperação 5
Haverá vida depois da recuperação?
Se imaginarmos uma vida totalmente em torno de um centro, em que tudo gira em torno desse centro até a nossa identidade se confundir com essa bola de neve de complexidade, estaremos a descrever a vida de alguém que deixou de ter sequer a noção de que existe alguma coisa fora daquilo que vive.
Qual podería ser o objectivo de enfrentar a maior luta de uma vida, com profundo sofrimento, a ter de pôr em causa tudo e todos, a ter de ir ao quarto mais escuro, do medo mais esmagador, a ter de arrancar do peito a dor mais antiga e ninguém poder dizer se vamos ter sucesso, se vai ser rápido, e se; ainda por cima, não temos a certeza de que a vida depois da recuperação nos interessa???
Será mesmo que a dita "vida comum" interessa a um adicto? Será mesmo que o que ele mais quer ser é equilibrado??
Existe realmente equilíbrio na "vida comum"? Será, realmente interessante, a vida que as outras pessoas parecem almejar e viver?
Dificilmente.
Existe nas dependências um princípio de verdade que é o facto de estas responderem 100% das vezes a uma necessidade de sobrevivência perante perspectivas que não encontram eco no interior do adicto, de uma tremenda falta de reflexo entre o dentro e o fora, e um alicerce rombo, onde a "vida comum" criou mais mossa do que estrutura e força, quando a personalidade estava ainda em formação.
É difícil compreender fora da cabeça do adicto que a dita "vida normal" tem muito de alucinada e absurda. O facto de nos termos habituado a ela não significa que ela seja razoável e que seja aceitável tanto do que sucede de absurdo, doloroso e desnecessariamente maçerador aquilo que se vive. A "vida normal" das ditas pessoas "normais" é muitas vezes um percurso de adaptação ao inaceitável, que não é necessariamente grande demonstração de inteligência.
Perante o inaceitável talvez fosse mais lógico não aceitar. E no entanto, as circunstâncias da vida, os percursos, uma educação que nos prepara para a adaptação e não para a transformação, cria aceitantes, cooperantes com o inaceitável e para o dependente isso parece o inferno.
Além da terrível pergunta:
Serei eu capaz de viver uma vida "normal"?
Se imaginarmos uma vida totalmente em torno de um centro, em que tudo gira em torno desse centro até a nossa identidade se confundir com essa bola de neve de complexidade, estaremos a descrever a vida de alguém que deixou de ter sequer a noção de que existe alguma coisa fora daquilo que vive.
Qual podería ser o objectivo de enfrentar a maior luta de uma vida, com profundo sofrimento, a ter de pôr em causa tudo e todos, a ter de ir ao quarto mais escuro, do medo mais esmagador, a ter de arrancar do peito a dor mais antiga e ninguém poder dizer se vamos ter sucesso, se vai ser rápido, e se; ainda por cima, não temos a certeza de que a vida depois da recuperação nos interessa???
Será mesmo que a dita "vida comum" interessa a um adicto? Será mesmo que o que ele mais quer ser é equilibrado??
Existe realmente equilíbrio na "vida comum"? Será, realmente interessante, a vida que as outras pessoas parecem almejar e viver?
Dificilmente.
Existe nas dependências um princípio de verdade que é o facto de estas responderem 100% das vezes a uma necessidade de sobrevivência perante perspectivas que não encontram eco no interior do adicto, de uma tremenda falta de reflexo entre o dentro e o fora, e um alicerce rombo, onde a "vida comum" criou mais mossa do que estrutura e força, quando a personalidade estava ainda em formação.
É difícil compreender fora da cabeça do adicto que a dita "vida normal" tem muito de alucinada e absurda. O facto de nos termos habituado a ela não significa que ela seja razoável e que seja aceitável tanto do que sucede de absurdo, doloroso e desnecessariamente maçerador aquilo que se vive. A "vida normal" das ditas pessoas "normais" é muitas vezes um percurso de adaptação ao inaceitável, que não é necessariamente grande demonstração de inteligência.
Perante o inaceitável talvez fosse mais lógico não aceitar. E no entanto, as circunstâncias da vida, os percursos, uma educação que nos prepara para a adaptação e não para a transformação, cria aceitantes, cooperantes com o inaceitável e para o dependente isso parece o inferno.
Além da terrível pergunta:
Serei eu capaz de viver uma vida "normal"?
...
É um obstácuo existencial, que abre uma proposta de análise social a todos nós, de um questionar que não devia ser encerrado com o carimbo "Bem vindo ao mundo dos crescidos! Cresce!" Porque se é certo que existe sempre uma forma de imaturidade no adicto: emocional, vivencial, espiritual... verdade é também que num ponto o adicto tem razão em dizer que há também muito a mudar no absurdo colectivo em que a banalidade aceita viver, sem questionar.
É um obstácuo existencial, que abre uma proposta de análise social a todos nós, de um questionar que não devia ser encerrado com o carimbo "Bem vindo ao mundo dos crescidos! Cresce!" Porque se é certo que existe sempre uma forma de imaturidade no adicto: emocional, vivencial, espiritual... verdade é também que num ponto o adicto tem razão em dizer que há também muito a mudar no absurdo colectivo em que a banalidade aceita viver, sem questionar.
Ainda assim, que fique registado:
O inferno é antes da recuperação, a recuperação é um parto doloroso e, sim, existe vida depois da recuperação. Ninguém melhor do que quem fez esse caminho para o afirmar sem margem para dúvidas, para dizer que é possível, e como nada pode ser pior do que nadar num mar de medo, seja ele aplaudido ou estigmatizado, seja ele feito de pressões externas ou internas... Viver sem dependências é sempre, inequivocamente, muito melhor.
O inferno é antes da recuperação, a recuperação é um parto doloroso e, sim, existe vida depois da recuperação. Ninguém melhor do que quem fez esse caminho para o afirmar sem margem para dúvidas, para dizer que é possível, e como nada pode ser pior do que nadar num mar de medo, seja ele aplaudido ou estigmatizado, seja ele feito de pressões externas ou internas... Viver sem dependências é sempre, inequivocamente, muito melhor.
Obstáculos à recuperação 6
Substituição.
Antes bêbedo do que drogado.
Antes jogo do que droga.
Antes comer do que beber.
Antes trabalhar do que jogar.
Não compreender em profundidade o que significa ser adicto é algo expresso nestas expressões.
A adicção é uma força viva que pode saltar de consumo em consumo sem desaparecer ou tranformar doença em saúde.
A adicção é um desequilíbrio existêncial, profundo, quase celular, ancestral, enraizado no próprio significado da vida do adicto.
É totalmente indiferente se é esta ou aquela depêndência.
Aliás muitos vão saltando desta para aquela, daquela para outra, quando não várias em simultâneo.
Adictos aos jogos de computador podem ser em simultâneo predadores sexuais.
Trabalhadores compulsivos podem ser ao mesmo tempo alcóolicos.
É dentro que o desequilíbrio está e não à superfície visível.
Esta confusão é um obstáculo à recuperação porque cria um jogo de espelhos e de esperanças vãs.
O co-dependente parece mais saudável e controlado do que o adicto.
Quantas vezes o adicto em recuperação salta para a co-dependência, nomeadamente fazendo formação nas áreas de prestação de cuidados. Muitas vezes o adicto precisa de ir em simultâneo a reuniões de co-dependentes.
O buraco negro tem muitos nomes, muitas côres, significados e expressões. Mas nunca deixa de ser o que é: um buraco negro sem fim sugando o adicto de dentro para fora.
A recuperação verdadeira é um exercício de humildade e de poder resgatado minuto a minuto. Minuto a minuto.
O resgate desse poder pode ser ofuscado pela substituição de uma adicção por outra.
Minuto a minuto.
Mais 24 horas.
Antes bêbedo do que drogado.
Antes jogo do que droga.
Antes comer do que beber.
Antes trabalhar do que jogar.
Não compreender em profundidade o que significa ser adicto é algo expresso nestas expressões.
A adicção é uma força viva que pode saltar de consumo em consumo sem desaparecer ou tranformar doença em saúde.
A adicção é um desequilíbrio existêncial, profundo, quase celular, ancestral, enraizado no próprio significado da vida do adicto.
É totalmente indiferente se é esta ou aquela depêndência.
Aliás muitos vão saltando desta para aquela, daquela para outra, quando não várias em simultâneo.
Adictos aos jogos de computador podem ser em simultâneo predadores sexuais.
Trabalhadores compulsivos podem ser ao mesmo tempo alcóolicos.
É dentro que o desequilíbrio está e não à superfície visível.
Esta confusão é um obstáculo à recuperação porque cria um jogo de espelhos e de esperanças vãs.
O co-dependente parece mais saudável e controlado do que o adicto.
Quantas vezes o adicto em recuperação salta para a co-dependência, nomeadamente fazendo formação nas áreas de prestação de cuidados. Muitas vezes o adicto precisa de ir em simultâneo a reuniões de co-dependentes.
O buraco negro tem muitos nomes, muitas côres, significados e expressões. Mas nunca deixa de ser o que é: um buraco negro sem fim sugando o adicto de dentro para fora.
A recuperação verdadeira é um exercício de humildade e de poder resgatado minuto a minuto. Minuto a minuto.
O resgate desse poder pode ser ofuscado pela substituição de uma adicção por outra.
Minuto a minuto.
Mais 24 horas.
Adicto e manipulação
Controle e repressão - a espada de dois gumes
Nunca vivemos a vida uns dos outros, não temos essa capacidade física nem psiquica. Não podemos substituir o outro no que sentimos que faríamos melhor.Parece-nos sempre que na situação do outro podíamos conseguir outros resultados, mesmo se estivessemos nas mesmas circunstâncias. As famílias e amigos costumam saber exactamente no que era necessário ao adicto para "mudar de vida" e no entanto a história parece arrastar-se sem grandes mudanças nem de uns nem de outros.
Quando uma fórmula não funciona sería melhor mudar de fórmula, mas é mais comum que tudo se mantenha e vá agudizando, porque as dependências resultam de dinâmicas e não de um indivíduo apenas, embora se manifestem mais no adicto.
Muitas vezes, com o passar do tempo, vai aumentando o teor do controlo e da repressão que os que sentem que têm algum ascendente sobre o adicto exercem sobre este.
Trancar num quarto, trancar em casa sem telefone, vigiar pelas ruas, controlar entradas e saídas com ar de GNR, ouvir telefonemas, invadir a privacidade... tudo se justifica. Chamam-lhe "intervir", que na realidade se chama "participar". Participar do mesmo ciclo de desrespeito que tem dois resutados:
1) é inútil.
2) aumenta no adicto a falta de respeito por ele mesmo e por aqueles que o querem ajudar.
O caminho do amor e do desrespeito confundem-se. Amor e desrespeito não ligam. Desrespeito e recuperação não ligam.
Facto é que a família é por norma quem menos pode ajudar o adicto. Em grande medida porque estes enredos uma vez criados tendem a aumentar e a tornar-se bizarros.
Ninguém tem de viver com um adicto. Ninguém é obrigado a aturar o drama e a confusão da vida do adicto. Muitas vezes não aceitar a adicção em casa é a maior prova de respeito que se pode dar ao adicto. Na realidade a maior parte das famílias pensa que protege o adicto de si mesmo controlando-o. Não lhe viram as costas porque têm receio que morra, e no entanto a maior parte dos que morrem de overdose ou de misturas viviam na casa dos pais. Logo a estatística vem demonstrar que este receio é irracional embora compreensível.
Facto é que a família é por norma quem menos pode ajudar o adicto. Em grande medida porque estes enredos uma vez criados tendem a aumentar e a tornar-se bizarros.
Ninguém tem de viver com um adicto. Ninguém é obrigado a aturar o drama e a confusão da vida do adicto. Muitas vezes não aceitar a adicção em casa é a maior prova de respeito que se pode dar ao adicto. Na realidade a maior parte das famílias pensa que protege o adicto de si mesmo controlando-o. Não lhe viram as costas porque têm receio que morra, e no entanto a maior parte dos que morrem de overdose ou de misturas viviam na casa dos pais. Logo a estatística vem demonstrar que este receio é irracional embora compreensível.
Quanto mais cedo o adicto percebe que não tem co-dependentes para o apoiar na sua adicção mais depressa fica sozinho, mais rápido percebe que por aí não se safa.
Quanto mais rápido percebe que por aí não se safa, mais rápido percebe que tem de fazer alguma coisa.
Provavelmente vai tentar encontrar outro co-dependente que continue a permitir-lhe continuar na mesma vida. E por sorte não conseguirá.
As famílias juraríam a pés juntos que não colaboram com a adicção, pelo contrário, desdobram-se em esforços, terão uma lista de todas as tentativas e de toda a dor. E isso é obviamente respeitável e mesmo louvável, vem do amor que sentem e foi feito de coração. No entanto, as tentativas só o são pelo adicto. Só o adicto é que tenta. É a luta dele. Quando a família também tenta, então é porque se substituiu ao adicto e "tentou" controlá-lo e é por isso que não resulta.
Permitir e contribuir para a adicção é muito mais básico. O adicto precisa de muito pouco para continuar adicto. Precisa de ter onde dormir e o que comer. Mais nada. Precisa de ter com que comprar o objecto da sua adicção. E mais nada. Tudo o resto perdeu perspectiva, e está como que esfumado numa nuvem abstrata de emoções que deixou de conseguir digerir.
Se o adicto tem onde comer, onde dormir e com que comprar o seu objecto de adicção... para quê mudar? Ele não precisa de mais nada. Mentir, manipular, e fazer senti-lo culpado e envergonhado... isso é inútil, o adicto sabe tudo acerca dessas 4 coisas. Ninguém mente mais ou melhor, manipula com mais argúcia, nem ninguém se sente mais culpado e envergonhado que o adicto. Esses caminhos mais do que inúteis são contra-producentes.
Para perceber que tem de fazer alguma coisa o adicto precisa de perder realmente o chão, caír no abismo, compreender que tocou o fim desse caminho. Quanto mais cedo melhor.
Muitos morrem. É verdade. Muitos fogem. Muitos perdem-se. É verdade. Mas poucos são verdadeiramente respeitados e amados. Com verdade, com integridade, com coragem para bater a porta a tempo e horas. Poucos têm a sorte de conhecer a nobreza das suas famílias, a honra dos seus amigos. A maior parte vive num mundo de esquemas e trafulhices, manipulações, controlo e repressão.
Além disso convém saber. As adicções matam. Todas. Não é apenas o alcool e a droga. O trabalho em excesso mata. A obesidade mata. E a solidão então...!
É por isso que tantos adictos morrem. Porque têm uma doença grave, crónica, e que os ultrapassa, por ser uma doença de dinâmicas familiares a que pertenceram a vida toda.
E é por isso que as famílias que querem ajudar o adicto, precisam antes demais de começar a fazer terapia, a aprender, a compreender, a trabalhar em conjunto e quanto ao adicto... ele, e apenas ele, tem de tentar.
Mais ninguém pode fazê-lo.
E ele não o fará, se não precisar.
Quanto mais rápido percebe que por aí não se safa, mais rápido percebe que tem de fazer alguma coisa.
Provavelmente vai tentar encontrar outro co-dependente que continue a permitir-lhe continuar na mesma vida. E por sorte não conseguirá.
As famílias juraríam a pés juntos que não colaboram com a adicção, pelo contrário, desdobram-se em esforços, terão uma lista de todas as tentativas e de toda a dor. E isso é obviamente respeitável e mesmo louvável, vem do amor que sentem e foi feito de coração. No entanto, as tentativas só o são pelo adicto. Só o adicto é que tenta. É a luta dele. Quando a família também tenta, então é porque se substituiu ao adicto e "tentou" controlá-lo e é por isso que não resulta.
Permitir e contribuir para a adicção é muito mais básico. O adicto precisa de muito pouco para continuar adicto. Precisa de ter onde dormir e o que comer. Mais nada. Precisa de ter com que comprar o objecto da sua adicção. E mais nada. Tudo o resto perdeu perspectiva, e está como que esfumado numa nuvem abstrata de emoções que deixou de conseguir digerir.
Se o adicto tem onde comer, onde dormir e com que comprar o seu objecto de adicção... para quê mudar? Ele não precisa de mais nada. Mentir, manipular, e fazer senti-lo culpado e envergonhado... isso é inútil, o adicto sabe tudo acerca dessas 4 coisas. Ninguém mente mais ou melhor, manipula com mais argúcia, nem ninguém se sente mais culpado e envergonhado que o adicto. Esses caminhos mais do que inúteis são contra-producentes.
Para perceber que tem de fazer alguma coisa o adicto precisa de perder realmente o chão, caír no abismo, compreender que tocou o fim desse caminho. Quanto mais cedo melhor.
Muitos morrem. É verdade. Muitos fogem. Muitos perdem-se. É verdade. Mas poucos são verdadeiramente respeitados e amados. Com verdade, com integridade, com coragem para bater a porta a tempo e horas. Poucos têm a sorte de conhecer a nobreza das suas famílias, a honra dos seus amigos. A maior parte vive num mundo de esquemas e trafulhices, manipulações, controlo e repressão.
Além disso convém saber. As adicções matam. Todas. Não é apenas o alcool e a droga. O trabalho em excesso mata. A obesidade mata. E a solidão então...!
É por isso que tantos adictos morrem. Porque têm uma doença grave, crónica, e que os ultrapassa, por ser uma doença de dinâmicas familiares a que pertenceram a vida toda.
E é por isso que as famílias que querem ajudar o adicto, precisam antes demais de começar a fazer terapia, a aprender, a compreender, a trabalhar em conjunto e quanto ao adicto... ele, e apenas ele, tem de tentar.
Mais ninguém pode fazê-lo.
E ele não o fará, se não precisar.
Adicto e manipulação
Manipular é tentador, é um jogo que se cria entre adictos e co-dependentes ou pessoas mais próximas. Um jogo em que todos perdem. Enquanto existir manipulação.Mentir, torcer um pouco a verdade, dizer só uma parte da verdade, inventar, omitir, vale tudo para adictos e co-adictos. Nesse baile de máscaras a mentira em si torna-se um vício, difícil de escapar, parte da bola de neve descontrolada que enrola todos.
Quem quer ajudar o adicto considera que os fins justificam os meios e não compreende que cada jogo, cada enredo, cada pequena ou grande mentira, apenas reforça o quando o adicto se sente estúpido, boicotado, enrolado, manipulado. Perde-se a confiança, perde-se o respeito, perde-se a noção da fronteira entre o certo e o errado quando adicto e co-adicto usam os mesmo métodos.
Recuperação passa por lidar com a verdade de forma amorosa. Amorosa não significa complacente. Ajudar não é tratar o adicto como se fosse uma criança se não é, nem como um retardado mental. Ajudar significa respeitar e exigir respeito com amor. O tipo de amor que não manipula, não contorna.
É importante que todos se confrontem com a necessidade de entrar em recuperaçao, não só o adicto como todos os que o rodeiam. Não há certos e errados quando um adicto está em adicção activa. Há uma doença conjunta que se manifesta nele de forma mais ostensiva mas que afecta todos.
Não serve de nada culpar, apontar o dedo, seja para os outros, seja para nós mesmos.
Adicção não pode continuar a envolver mais culpa ou vergonha do que as outras doenças. Não tem a ver com errar, com ser estúpido ou mau carácter. Tem a ver com sofrimento e necessidade de ajuda. Para adictos e familiares.
Amor
Amo-te a ti mas não a esse monstro em ti
A nossa visão compartimenta.Aquele é ele, e ele tem um lado solar e outro lunar. E eu gosto dele quando está bem, mas acho-o estúpido e dá-me raiva quando está mal.
É uma espécie de possessão. Uma espécie de vírus que se instala, uma espécie de montruosidade, um parasita que se apodera de quem amamos criando aspectos hediondos na vítima dando-nos tanto a lamentar. Tanta potencialidade deitada ao lixo. Uma pena...
Viver só é ser bocados.
Aqui posso ser assim, ali posso ser assado.
Todos nós experimentamos um pouco dessa solidão, todos percebemos que não podemos ser o mesmo em todas as circunstâncias.
Para os adictos isso ganha proporções apocalípticas. Sempre que alguém diz: Gosto tanto de ti mas não gosto de isto em ti. Esta frase é como um serrote.
Do ponto de vista do adicto, tudo é inteiro. Eu sou esse. Eu não consigo ser este e aquele, por isso estou perdido. Estou desgraçado. Sei como neutralizar isso. Só preciso de aumentar o desvario e isto vai desaparecer.
Do ponto de vista do co-dependente, o adicto é um doente, enquanto o co-dependente é a vítima.
Do ponto de vista da comunidade em geral o adicto é-o consoante o objecto da adicção. Ser um acumulador compulsivo, um jogador compulsivo, um comedor compulsivo, um adicto aos jogos de computador, da televisão, de adrenalina, de sexo... são adicções repulsivas mas não criminosas nem socialmente reprováveis. São apenas faltas de personalidade.
Lá está. Falta de personalidade. Lá estão pessoas cortadas às fatias.
Só existe uma forma de amar sem deixar o outro sozinho: Amando o sol e a lua, dando respeito, verdade, dizendo sim e não de forma objectiva, não participando do jogo de sombras, participando do pedido de ajuda sincero. O todo do outro não é feito de bocados. Não dá para separar gosto disto mas não respeito aquilo.
Cada um é um todo em si mesmo.
Quem ama percebe isso, não se auto-vitimiza, nem faz teatrinhos.
Perde o medo e abraça tudo, ou vai embora e deixa o adicto em "paz".
O que é, e não é amor
Talvez não exista assunto mais importante na vida das pessoas.Talvez não exista um assunto mais mal arrumado e mal crescido do que este.
É difícil definir o que é o amor, para saber se o vivemos, se o sabemos viver.
No entanto é mais claro e fácil de compreender o que não é amor, para irmos por exclusão de partes.
É essa exclusão, e essa capacidade de manter critérios, que facilmente se perde dentro da necessidade que todos temos de amar e ser amados e que, rapidamente, se transforma em carência a qual provoca comportamentos compulsivos, os quais deixam de ter seja o que for a ver com amor.
Tenho-me apercebido de que muitas pessoas só compreendem o amor que perdem, outras aprendem a amar no limite com um sentimento de “tarde de mais”.
Demasiado tarde nos apercebemos muitas vezes do quanto somos mesquinhos no amor, do quanto desvalorizamos as subtilezas do amor, valorizando antes os conflitos do ego, a necessidade de ter razão, a necessidade de controlar e de impor ritmos, regras e circunstâncias.
Por outro lado, demasiadas vezes chamamos amor a coisas que não são amor, confundindo a nossa necessidade vital e humana de amar e ser amado, com o “precisar” daquela pessoa específica ou achar que a outra pessoa “precisa” de nós.
Precisamos de amor, mas não de ter ou ser tido, de ficar preso, de ser “daquele alguém“.
Precisamos do sentimento de amar, porque nos abre a dimensões de expansão e liberdade e nunca por nos prender a rotinas, a esquemas, a manipulações e a carências.
Na realidade amar em última análise pode ser muito simples.
Começa por amor próprio.
Não podemos dizer que amamos outros se não nos amamos a nós mesmos. E não podemos amar-nos a nós mesmos se não nos garantimos espaço para a felicidade e para a liberdade de sermos quem somos e de termos a noção do sagrado da nossa natureza.
Ao aprendermos a amar-nos dessa maneira, estamos aptos a passar à fase B, que é amar outros dentro do pressuposto, de amar os outros como a nós mesmos, ou seja, dando-lhes o espaço e a liberdade de serem exactamente como são.
Podemos estar juntos ou separados. Mas só podemos viver uns para os outros quando aquilo que somos fica inteiro, não se parte, nem divide, nem se deforma para se moldar a situações, a prisões, a seja o que for que desrespeite a nossa natureza, a nossa verdade, o facto de que nascemos um, e morremos um, porque somos Um, e não dois.
Não somos os filhos, não somos os pais, não somos o namorado, a namorada, o noivo, o marido, a mulher, a mãe, não somos tanta gente. Somos simplesmente um indivíduo, que precisa de crescer e de ser amado nisso, por si mesmo e por outros.
Se amar e ser amado é uma necessidade básica, crescer e ser é ainda mais importante. Por isso há que manter as coisas em perspectiva e aprender a dar aquilo de que se precisa realmente.
A próxima vez que achar que ama alguém, pense se será mesmo amor. E se não for, comece pelo amor próprio, o primeiro e último de todos os amores.
Amor e ser pessoa
Desde que nascemos que fundamentalmente, precisamos de amor. Para sobreviver precisamos de alimento e de alguns outros elementos puramente orgânicos, mas para sermos pessoas, precisamos de amor mais ainda do que de alimento.Essa forma de amor que aprendemos dos nossos primeiros meses e anos, desde a gravidez à entrada para a escola, molda a forma como iremos amar e ser amados por toda a vida, excepto se alterarmos esse padrão, com bastante tenacidade e persistência, uma vez conscientes deste processo.
Para muitos pais é óbvio que amam os seus filhos. Dirão mesmo que os amam acima deles mesmos, mais do que as suas próprias vidas. No entanto ninguém pode dar o que não recebeu, nem pode saber o que nunca aprendeu, e se não fomos amados com um amor abnegado, saudável, e feliz, simplesmente não temos isso para dar.
São já numerosos os estudos que nos demonstram que o amor dito incondicional é simplesmente uma pérola, uma raridade.
Podemos dizer que a esmagadora maioria das crianças nasce e cresce em formas de amor imaturas, com pessoas que estão muitas vezes nos primeiros passos da maturidade emocional, por mais bem sucedidas que possam parecer noutros aspectos.
Amor limpo e amor livre, é um amor que expande e liberta, que dá espaço, que valoriza o que existe, que não passa mensagens mais ou menos sublineares de que não somos suficientemente bons, ou de que precisamos de nos esforçar para merecer demonstrações de amor.
Amor incondicional, é um amor que deixa ser cada um como é, e apenas promove ferramentas de potenciação da natureza sagrada de cada um.
A esmagadora maioria das crianças não terá isso.
Nenhum adulto é adulto sem ter sido essa criança que não teve esse amor incondicional.
A maioria das pessoas cresceu, cresce e crescerá com um défice de demonstrações de afecto gratuitas, com valorização incondicional e com investimento amoroso e entusiasta sobre as suas características e pequenas grandes conquistas enquanto atravessa o nascimento e os seus primeiros anos de vida.
Com a ideia de que educar é moldar, retirar comportamentos indesejáveis e premiar comportamentos desejáveis, damos boas razões às crianças para decidirem que têm aspectos errados, que estão como que avariados e que precisam de arranjar máscaras que façam parecer que se adequaram.
Adultos são conjuntos sofisticados de máscaras que caiem em situações limite, mas que servem no dia a dia para tornar a vida suportável.
No entanto o ser autêntico não morre. Fica ali transformado em sombra e aparece aqui a ali nas nossas iras, compulsões, e comportamentos inexplicáveis.
Ser pessoa é já estar completo. Como dizia a frase tão bonita: Os teus filhos, não são teus, são filhos da vida.
Quem de nós aprendeu que era filho da vida, e que já era completo e uma obra sagrada da vida, e que era amado incondicionalmente?
Quem de nós aprendeu que amar é gostar de ver o outro ser livre?
Quem de nós aprendeu que amar é dar ao outro a liberdade de ser exactamente quem é, como é?
Quem de nós foi ou é amado assim?
Amor e sofrimento, são a aliança da cultura romântica na qual gerações crescem a acreditar que amor é sacrifício, que amor é sofrer, que amar o outro pode alguma vez ser incompatível com amor próprio.
Na realidade amar sem amor próprio, é amar sem se ser completamente pessoa plena, autêntica, viva e cheia de generosidade. Ter para dar, implica receber para ter.
Quando damos, damos, damos... sempre na mesma direcção, sem o retorno da gratidão, do amor mútuo, do espaço e da liberdade que como ser precisamos para viver,não é amor, é doença.
A doença de que mais se padece por essas casas todas, famílias, cidades, janelas de prédios.
Amar e ser pessoa, são aprendizagens do berço ao bacio. É nessa altura que se aprende o que é ser respeitado, ser amado com calma, com abertura e alegria.
Quem não teve isto, e quase ninguém teve, precisa de re-aprender. E isso não é vergonha, é esperança. Esperança de que afinal há outra forma.
Aliás esta forma de viver, nunca o foi.
FULGA
Ironicamente uma adicção é uma busca de perfeição. O adicto busca na sua adicção uma plenitude que intui de experiências e compulsivamente procura esses momentos através da ou das adicções de eleição.
Relacionamos o termo adicção com alcool e droga, mas a adicção é uma doença de vida, muito mais alargada e que se confunde muitas vezes com a vida comum.
Quando o adicto procura essa sensação de perfeição, do mundo perfeito, de se sentir perfeito, de fuga perfeita; existe uma sofreguidão, ou necessidade, seguida de uma concretização, que leva a um pico satisfatório que imediatamente começa a caír para uma insatisfação profunda normalmente caracterizada por extrema vergonha ou sentimento de culpa.
Podemos estar a descrever a forma como lidamos com as compras, com as festas, com as relações, mas também com a arrumação da casa, com a forma como trabalhamos, com a forma como nos vivemos num sentido muito lato.
A adicção distingue-se da plenitude porque em lugar de uma tranquilidade duradoura, sistematicamente vai enterrar-nos numa falta de paz ainda maior, uma intranquilidade que não nos deixa parar.
A sociedade em que vivemos convida à compulsão. Na realidade valoriza a obstinação por ser em si mesma bastante obcessiva e compulsiva, alternando os aspectos depressivos de uma sociedade de consumo, com a euforia das compensações materiais, demasiadas vezes vazias de humanidade.
Se trabalharmos demais, ou formos obstinados com a limpeza, ou andarmos sempre a tentar ter o corpo perfeito, a roupa perfeita, as notas, as avaliações, as promoções, e tudo o que nos é transmitido como indicadores de sucesso e de realização pessoal; não iremos ser considerados adictos, e no entanto esta é uma atitude perante a vida com a tal intranquilidade, a ressaca, a insatisfação que não deixa parar.
A adicção define-se por tomar conta de toda a nossa vida como um câncro na identidade, que se espalha e multiplica em consequências e complexidade. O que começa por ser um hábito inconsequente ou um aspecto relativamente harmonioso da nossa personalidade, toma conta de tudo o resto e em algum tempo a vida torna-se um enredo tipo bola de neve na qual a felicidade tem de ser artificialmente conseguida com obstinação para logo nos deixar em profundo desânimo e carência.
É por isso que recuperação não passa por deixar de beber ou de tomar drogas. Se não se alterar o buraco negro dentro de nós, outra dependência tomará o lugar da que se deixou.
Nem há adicções mais graves que outras. Nem mais erradas.
Adicção é uma doença que toma muitas formas e todas causam dor ao adicto e a quem o rodeia e todas precisam de ser resolvidas de dentro para fora, com tenacidade, respeito e amor próprio.
Ninguém disse que era fácil, mas quem disse que era impossível MENTIU.
Relacionamos o termo adicção com alcool e droga, mas a adicção é uma doença de vida, muito mais alargada e que se confunde muitas vezes com a vida comum.
Quando o adicto procura essa sensação de perfeição, do mundo perfeito, de se sentir perfeito, de fuga perfeita; existe uma sofreguidão, ou necessidade, seguida de uma concretização, que leva a um pico satisfatório que imediatamente começa a caír para uma insatisfação profunda normalmente caracterizada por extrema vergonha ou sentimento de culpa.
Podemos estar a descrever a forma como lidamos com as compras, com as festas, com as relações, mas também com a arrumação da casa, com a forma como trabalhamos, com a forma como nos vivemos num sentido muito lato.
A adicção distingue-se da plenitude porque em lugar de uma tranquilidade duradoura, sistematicamente vai enterrar-nos numa falta de paz ainda maior, uma intranquilidade que não nos deixa parar.
A sociedade em que vivemos convida à compulsão. Na realidade valoriza a obstinação por ser em si mesma bastante obcessiva e compulsiva, alternando os aspectos depressivos de uma sociedade de consumo, com a euforia das compensações materiais, demasiadas vezes vazias de humanidade.
Se trabalharmos demais, ou formos obstinados com a limpeza, ou andarmos sempre a tentar ter o corpo perfeito, a roupa perfeita, as notas, as avaliações, as promoções, e tudo o que nos é transmitido como indicadores de sucesso e de realização pessoal; não iremos ser considerados adictos, e no entanto esta é uma atitude perante a vida com a tal intranquilidade, a ressaca, a insatisfação que não deixa parar.
A adicção define-se por tomar conta de toda a nossa vida como um câncro na identidade, que se espalha e multiplica em consequências e complexidade. O que começa por ser um hábito inconsequente ou um aspecto relativamente harmonioso da nossa personalidade, toma conta de tudo o resto e em algum tempo a vida torna-se um enredo tipo bola de neve na qual a felicidade tem de ser artificialmente conseguida com obstinação para logo nos deixar em profundo desânimo e carência.
É por isso que recuperação não passa por deixar de beber ou de tomar drogas. Se não se alterar o buraco negro dentro de nós, outra dependência tomará o lugar da que se deixou.
Nem há adicções mais graves que outras. Nem mais erradas.
Adicção é uma doença que toma muitas formas e todas causam dor ao adicto e a quem o rodeia e todas precisam de ser resolvidas de dentro para fora, com tenacidade, respeito e amor próprio.
Ninguém disse que era fácil, mas quem disse que era impossível MENTIU.
Adicções
Lista sempre em actualização e que apenas pretende ser uma referência dado que na realidade todas as adicções decorrem do mesmo vazio intenso e muitas vezes podem apresentar-se associadas ou substituir-se ao longo da vida do adicto.
Adicção a:o/à
- sofrimento
- adrenalina
- alcool
- cirurgia plástica
- auto-mutilação
- droga
- medicamentos
- vida social demasiado activa
- fugacidade de relacionamentos
- trabalho
- doces
- hidratos de carbono
- comida
- televisão
- internet
- jogos a dinheiro
- jogos de computador
- compras compulsivas
- relacionamentos conflituosos
- relacionamentos negligentes
- relacionamentos que fazem sofrer
- vazio e inércia
- limpezas e arrumação
- acumulação (coisas, colecções, lixo...)
- co-dependência
- sexo
- tabaco
- perfeccionismo e excesso de exigência em tudo
- dietas
- adrenalina
- alcool
- cirurgia plástica
- auto-mutilação
- droga
- medicamentos
- vida social demasiado activa
- fugacidade de relacionamentos
- trabalho
- doces
- hidratos de carbono
- comida
- televisão
- internet
- jogos a dinheiro
- jogos de computador
- compras compulsivas
- relacionamentos conflituosos
- relacionamentos negligentes
- relacionamentos que fazem sofrer
- vazio e inércia
- limpezas e arrumação
- acumulação (coisas, colecções, lixo...)
- co-dependência
- sexo
- tabaco
- perfeccionismo e excesso de exigência em tudo
- dietas
Assinar:
Postagens (Atom)